Sexta-feira, Março 31, 2006
As namoradinhas do Prof. Thimpor.
Ana.Viciada em naftalina. Quando descobri ela havia enchido todas as minhas gavetas com aquelas bolinhas ridículas. Fui ao cinema com Ana três vezes e em todas elas o filme estava fora de foco, o lanterninha nos retirou do recinto e roubaram nosso pacote de pipocas. Nosso romance terminou quando ela se entregou para um vendedor das Casas Pernambucanas. Atormentada pela traição, Ana fugiu para Alagoas três meses depois. Minha paixão por Ana durou até ela tentar vender minha coleção de figurinhas carimbadas para o dono da bomboniére do cinema. Ana era a única capaz de pagar as contas do hospital quando nossas brigas descambavam para a pancadaria e ela descia a lenha pra valer.
Beatriz.
Beatriz conquistou meu coração e meu colesterol quando amarrou os cadarços do meu sapato no rabo do gato da nossa família, um felino infeliz que acabou se suicidando num sábado chuvoso, depois de passar semanas internado numa clínica veterinária da cidade. Nossos encontros, a maioria escondidos, se davam sempre na curva do rio, debaixo do pé de eucalipto, quando ambos torcíamos para que o jipe do prefeito não surgisse na estradinha lamacenta e nos desse um flagrante inevitável. Num desses encontros Beatriz disse que desconfiava do meu amor, que eu não demonstrava uma ponta sequer de paixão, mas eu fiz que não ouvi, peguei minhas roupas e fui embora, sem olhar para trás, tornando as coisas mais difíceis ainda. Assim, Beatriz passou pela minha vida, balançando o meu coreto e devorando todos os sanduíches de nossos piqueniques.
Clara.
A única dificuldade do nosso namoro foi uma irmã gêmea de Clara, Abigail, com a mesma cara, a mesma persistência e a mesma pinta na coxa esquerda. Quando eu pensava que estava com Clara, estava com Abigail, e vice-versa. Durante todo o tempo eu ficava tentando descobrir com quem estava saindo e nem podia prestar atenção no filme. Acabei descobrindo que Clara era a de voz fanhosa por acaso, ao ser esmurrado violentamente pelo amante de Abigail, um alemão parrudo, com um trinta-e-oito deste tamanho. Desiludido, pedi mais um conhaque e me apaixonei por Diana.
Diana.
Conheci Diana na Churrascaria do Julião, ao ser atingido por um cupim mal assado, arremessado por um bêbado atrevido. Diana foi quem segurou o bêbado, pagou a conta e me tornou um vegetariano incontido. Hoje passo ao largo quando ouço falar em bife-a-cavalo. Tudo o que restou do nosso romance foi uma samambaia mal cuidada que enfeita a sala de costura de titia.
Gilda.
Era a única disponível na festa, estava alucinada e não sabia dançar. Mas o sábado foi magnífico e se não fosse um tango mal acabado o fim de semana teria sido perfeito.
Hortênsia.
Ela recusou-se a dizer seu nome durante semanas e foi nesse período que gastei todas as minhas economias em pescarias insossas e pacotes de algodão doce, sem falar nos pés-de-moleque. Uma paixão passageira, mas gratificante.
Lúcia.
Apaixonou-se subitamente pelo Caubi Peixoto, arrumou as malas e viajou para Minas, levando parte da minha vida e o dinheiro do aluguel da quitinete.
Maria.
Argentina, Maria Ornitorrinco sumiu quando voltei com os ingressos para o teatro. Quem souber do seu paradeiro é favor avisar que a peça estava ótima.
A longa perna da mentira.
Uma data puxa a outra. Segunda-feira, 27 de março, o ministro Palocci foi demitido pela verdade de um caseiro. Na quarta-feira, o deputado Osmar Serraglio leu o relatório final da CPMI dos Correios, concluindo que o presidente é um ignorante em causa própria. Hoje, 31 de março, é o dia de mentira da "revolução de 64". Amanhã, 1.º de abril, é o Dia da Mentira. Nunca a mentira teve uma perna tão comprida. Quando o Dia da Mentira surgiu na França, no começo do século 16, o Ano Novo era festejado em 25 de abril, junto com a chegada da primavera. As festas duravam uma semana e terminavam no dia 1.º de abril. Naqueles tempos, a mentira tinha perna curta. Por isso, todos achavam que o rei Carlos IX estava mentindo. Em 1564, anunciou aos súditos a adoção do calendário gregoriano, determinando assim que o Ano Novo fosse comemorado no dia 1.º de janeiro. Acostumados com as velhas mentiras da monarquia, alguns franceses não levaram a sério a mudança. Sabiam que reformas, vindas da realeza, só mesmo na "folhinha". Continuaram a seguir o calendário antigo, pelo qual o ano iniciaria em 1.º de abril. Na outra ala, os gozadores passaram a ridicularizar os conservadores, enviando presentes esquisitos e convites para festas que não existiam. Não abdicaram do calendário antigo, pelo qual o ano iniciaria em 1.º de abril.Se alguém achar que tudo isso é mentira, basta conferir no Google: "Em países de língua inglesa o Dia da Mentira costuma ser conhecido como April Fool's Day ou Dia dos Tolos, na Itália e na França ele é chamado respectivamente Pesce d'aprile e Poisson d'avril, o que significa literalmente "peixe de abril". Uma data puxa a outra. Desde o grito do Ipiranga -"Independência ou morte!" -, a mentira no Brasil tem as pernas cada vez mais compridas, e a hipocrisia tornou-se uma instituição nacional. Os generais determinaram "comemorar" o golpe militar em 31 de março e não em 1.º de abril, a data real do sinistro. Juscelino criou a capital da mentira. Jango Goulart não foi escorraçado, fugiu. Jânio Quadros não bebeu demais da conta, renunciou. Tancredo Neves se internou por mais de trinta dias no hospital para tratar de uma simples dor de barriga. A Academia Brasileira de Letras ainda acredita que Zé Sarney é escritor. Collor de Mello era um caçador de marajás. Fernando Henrique Cardoso pediu para que esquecessem tudo o que escreveu, antes de aplicar todo o dinheiro das privatizações na felicidade da nação. 1.º de abril de 2006. Nunca a mentira teve uma perna tão comprida.
- "A desgraça da mentira é que, ao contar a primeira, você passa a vida inteira contando mentira para justificar a primeira que contou" - de Luiz Inácio Lula da Silva, que cometeu à nação esta frase que vai abrir sua biografia. Uma mentira a puxa a outra. Depois de uma perna vem outra perna, devagar o engodo foi ao longe. Não importa nome, sobrenome, seja rico ou seja pobre:
— "Qualquer um pode esquecer seu extrato bancário na rua ou em outro lugar qualquer".
— "O caseiro estava comprado e não merece a mínima credibilidade".
— "Alguém botou esses dólares na minha cueca".
— "Antes das nove estarei de volta".
— "O povo não suporta mais mentiras".
— "Não deixo pedra sobre pedra!".
— "Nunca estive naquela casa".
— "Você foi a única mulher que eu realmente amei!".
— "Faz falta minha mulher Marijana e os filhos, que ficaram em Budapeste. A viagem da Europa a Curitiba dura 12 horas. Isto é muito longe".
— "Tenho certeza absoluta de que não existe esse cheque, a não ser que ele seja um artista muito grande e que tenha produzido esse cheque".
— "O Palmieri foi a Lisboa comigo a passeio para aliviar o estresse".
— "Não o conheço. Estive com ele duas vezes e o cumprimentei sem saber quem era".
— "Eu não minto!". No Iraque, George W. Bush é muito lembrado no Fool's Day - Dia dos Tolos, dos bobos - depois que ele garantiu que aquele ex-país seria um celeiro de armas químicas.(Dante Mendonça, jornal O Estado do Paraná, sexta-feira, 31/3/06)
Quinta-feira, Março 30, 2006
Os tais fulanos.
Na foto promocional de "Fulano de Tal", Denise Assumpção e os dois que já se foram: José Maria Santos e Narciso Assumpção
Redação do jornal O Estado do Paraná, 31 de junho de 1974. Dante Mendonça desenhava e Manoel Carlos Karam escrevia uma tira diária com o nome de "Fulano de Tal". Karam era editor do jornal (escrevia também a coluna "Triboladas"), Dante o ilustrador e chargista da página editorial. A dupla criou vários personagens. Quarta-feira, Março 29, 2006
psiu.
Arte de suprema delicadeza, o haicai primeiro cria um clima, depois dispara um clímax. Desenhista de humor zen, Lin dá a impressão de que nao poderia se expressar melhor em poemas se nao fosse pelo haicai. Essa arte compacta, sintética, minimalista, que e ao mesmo tempo contemplacao da imagem e mergulho na imagem, tern realização precisa nas suas mãos. Seus poemas sao como círculos na água: de um pequeno ponto irradiam-se ate o infinito, vibrando dentro de um silêncio também zen.Marco Polo
Usina de Sonhos/René Dotti
Um dos juristas mais conhecidos e respeitados do Brasil tem sangue autênticamente curitibano. René Dotti tem o orgulho de dizer que nasceu a 200 metros de onde o falecido papa João Paulo II rezou a célebre missa no Palácio Iguaçu. Aluno de uma das primeiras turmas do tradicional Colégio Estadual do Paraná, Dotti foi influenciado pela efervescência cultural do centenário da emancipação politica do Estado. "0 inicio dos anos 50 foi marcado por várias manifestações culturais na Biblioteca Pública e no Teatro Guaíra." Os locais são citados por ele como referências da cidade até os dias de hoje. Do ponto de vista jurídico, Dotti faz referência à película Roma, cidade aberta, para ressaltar a visão libertária dos curitibanos. "Curitiba tem um ambiente propício para a discussão dos mais diversos temas. É uma cidade intelectualizada", reconhece. A colonização feita por varias etnias também é citada como ponto de diversidade de pensamento presente na capital paranaense e a resistência da imprensa local ao regime militar ao espírito de liberdade dos curitibanos. "A resistência às restrições da ditadura aconteciam sempre que possível, na luta contra a repressão." Saudosista, ele relembra a infância marcada pelo signo libertário dos balões e das pipas soltados ao céu, sem o medo dos incêndios, que provocavam o efeito romântico e sonhador de estrelas cadentes, símbolos dos mais íntimos desejos humanos. (Jornal O Estado do Paraná, encarte especial sobre Curitiba, 29/3/06)
Vendendo o meu peixe.
É pegar ou largar! Álbum de luxo, sobrecapa, 145 páginas de humor e mais pôster encartado. Prefácio de Jaguar. Pedidos para luizsolda@uol.com.br R$50,00 mais despesas postais. He! He! He!Em busca do fim da picada.
Luiz Inácio Lula da Silva tem um grande mérito. É um determinado, um brasileiro que não desiste nunca. Mesmo sem enxergar um palmo à frente do nariz, encontra-se embrenhado na selva, em busca do fim da picada. Os manuais de sobrevivência na selva nos aconselham a não ficar parado no aguardo de socorro. É preciso se mover. Olhar atento em volta, determinar a localização da melhor forma possível e recolher o que ainda nos resta. Todos os objetos são vitais, mas alguns são mais úteis: lanterna, espelho, caneta, livro sobre cobras venenosas, travesseiro, cantil com água, sal, faca de caça, ataduras de gaze, um isqueiro é de grande valia. É fundamental localizar uma fonte de água.Caso tenhamos em mãos um rádio que esteja funcionando, 121.5 é a freqüência de socorro internacional. Depois de sinalizar o local, é preciso juntar todo o material combustível que puder. Para que uma equipe de salvamento possa nos localizar, é preciso deixar no local um bilhete dizendo o caminho que tomamos, e quando partimos. Mas não podemos deixar dúvidas acerca do rumo tomado. Enquanto isso, é aconselhável escrever um diário de viagem. Luiz Inácio Lula da Silva está carente de um manual de sobrevivência na selva. Ele se move, caminha célere em busca do fim da picada.Enxergar o real fim da picada não é uma tarefa fácil. Como num deserto, o fim da picada é uma miragem. Quando o assessor especial do ministro José Dirceu, Waldomiro Diniz, foi filmado pedindo 10% da botija, parecia o fim da picada. Mato adiante, o deputado Roberto Jefferson denunciou o mensalão e a opinião pública quedou-se pasma:— É o fim da picada!
Não era. Naquela selva alguém estava mentindo. E foi também nas proximidades de um bosque francês - o Bois de Bologne - que Luiz Inácio Lula da Silva declarou-se convicto de que aquilo não era o fim da picada, e profetizou:
— A desgraça da mentira é que, ao contar a primeira, você passa a vida inteira contando mentira para justificar a primeira que contou. De lá para cá, um por um, os companheiros de viagem caíram sob o efeito do veneno das próprias mentiras, e o autor da frase retomou a marcha batida em busca do fim da picada.É o fim da picada. Em entrevista, o caseiro Francenildo diz que viu Palocci de dez a vinte vezes na mansão de tolerância. A revista Época publica matéria mostrando que R$ 25 mil foram contabilizados na conta do caseiro. Francenildo diz que ganhou o recurso contabilizado do pai. Começa a busca atrás de quem quebrou de forma ilegal o sigilo de Francenildo. Na Polícia Federal, cada um cada um, e Jorge Mattoso, presidente da Caixa Econômica Federal, se nega a fazer o papel de boi de piranha e entrega a corrente da ilegalidade: estava jantando em um restaurante de Brasília, quando soube por meio de Ricardo Schumann, seu assessor, que a conta-poupança do caseiro Francenildo registrara "movimentações atípicas". Mattoso deu ordem para que se tirasse um extrato da conta. De posse dele, bebeu o que restava do vinho e foi entregar o ilícito em mãos, na casa oficial do ministro da Fazenda, no Lago Sul. É o fim da picada? Não. O assessor de imprensa do ministro correu a entregar o extrato bancário para o próprio filho, que por acaso é repórter da revista Época. Defenestrado, Palocci se despediu daquele mato sem cachorro dizendo que "deixa o governo com a consciência tranqüila e com a mesma humildade que chegou ao Ministério da Fazenda. Jamais patrocinou malfeitoria com recursos públicos e guarda profundo respeito às pessoas e às leis".A quebra do sigilo bancário ainda não é o fim da picada. Luiz Inácio Lula da Silva se move. Ele parece não ter a menor idéia do que seria o fim da picada. Sem rumo, não sabe onde está, não sabe o que se passa em sua volta e não enxerga um palmo à frente do nariz. Luiz Inácio caminha célere em busca do fim da picada. (Dante Mendonça, jornal O Estado do Paraná, 29/3/06)
Terça-feira, Março 28, 2006
Perhappiness — 2004
Segunda-feira, Março 27, 2006
Livros de Marcos Prado.
Para quem quer adquirir os livros "Eu, alías nós" e o "Livro dos Contrários", de Marcos Prado, favor enviar um e-mail constando nome, endereço completo e telefone. Deposite R$ 25,00 (R$ 20,00 dos livros e R$ 5,00 de despesas postais)) na Caixa Econômica Federal - ag. 0997, poupança 45494-3, em nome de Araiê Prado Berger de Oliveira e passe o número do documento para araie@terra.com.br Eu envio os livros (carta registrada), ok? Araiê Prado Berger de OliveiraA Babel da Luz.
Seja bem-vindo, Fernandinho Beira-Mar!
O que era apenas suspeita e boato, agora está confirmado. Definitivamente, entramos na rota do turismo sexual do Brasil. Primeiro foi o alemão Lothar Matthäus. Veio para Curitiba e transou com o Clube Atlético Paranaense. Isso para não usar palavra mais forte. Agora quem chega é o carioca Fernandinho Beira-Mar. Vem ao Paraná disposto a transar com o resto do Estado. Isso para não usar palavra mais forte. Tinha um tempo que para fazer turismo sexual era bem mais complicado. O forasteiro tinha que vasculhar esquinas e casas suspeitas, para depois se refugiar em algum hotel meia estrela na boca do lixo. Nestes tempos modernos, tudo é muito diferente. O garanhão se hospeda na suíte presidencial de hotel cinco estrelas e convoca a imprensa para entrevista coletiva. Então, basta escolher entre fotógrafos e repórteres. Seja bem-vindo, Fernandinho Beira-Mar. Na sua estada no Paraná não há de faltar acomodações de luxo, muito menos entrevistas à imprensa. Paraná trata com fidalguia seus visitantes ilustres. Especialmente os que vêm desfrutar de nosso turismo sexual. Hotéis cinco estrelas não nos faltam e, como se fosse pouco, vamos inaugurar uma “colônia de férias” seis estrelas em Catanduvas, com investimento de R$ 22 milhões. “Colônia de férias” seria expressão muito pobre para a importância do hóspede. Seria “spa”, digamos. O “retiro espiritual” de Catanduvas é coisa fina e aceita cheques do Banestado. Certamente será do agrado do senhor Beira-Mar, turista acostumado com todo o luxo e riqueza abaixo do Equador. Desde que chegou ao Brasil vindo de temporada de altos negócios na Colômbia, Fernandinho tem passado em revista o que há de bom e de melhor neste Brasil brasileiro. Sempre se deslocando a bordo de aeronaves especiais, conheceu as mansões com caseiros de Brasília, a luxúria de Maceió e os ribeirões pretos do interior de São Paulo. Na encantadora Florianópolis, lhe foi oferecido banquete de pirão com tainha escalada e, entre 42 praias, escolheu a dedo o endereço de hospedagem mais apropriado: a Avenida Beira-Mar. Analisando a infra-estrutura e a logística da rota do turismo sexual no Paraná - em que pese a localização privilegiada de Catanduvas, a poucos quilômetros de Foz do Iguaçu, sonho dourado do ilustre turista - autoridades do setor analisam que Fernandinho Beira-Mar talvez possa ser melhor hospedado em Curitiba, esta capital sensual, ecológica e cheia de amor para dar. Lothar Matthäus sabe que as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá. Curitiba tem capacidade hoteleira instalada de causar inveja a Catanduvas. Mas se faz pouca: com as Conferências Mundiais de Biossegurança e Biodiversidade da ONU, até o final de março a cidade não tem mais um só leito a oferecer. O último disponível foi ocupado pelo treinador Givanildo, no longínquo Hotel do Caju em Umbará. Mesmo assim, Curitiba não há de negar berço esplêndido ao ilustre Fernandinho Beira-Mar. Na falta de locais paradisíacos, temos a lhe oferecer o próprio paraíso: as acomodações da Federação Paranaense de Futebol. Com vistas para o Pinheirão e a criação de avestruzes, Fernandinho Beira-Mar há de se sentir em casa. (coluna Dante Mendonça, jornal Tribuna do Paraná, 27/3/06)Domingo, Março 26, 2006
A Revolução dos Dândis.

Até tu Leminski! Para especialistas, nem o poeta mais famoso do Paraná escapou do mapa genético simbolista O ano era 1982. A pesquisadora Cassiana Lícia de Lacerda acabara de publicar Obras Reunidas de Emílio de Menezes – um trabalho de fôlego o bastante para resgatar a figura do poeta, jornalista e sátiro curitibano que se fez dos intelectuais mais populares do Rio de Janeiro da belle époque. Da terra natal, ele tinha levado uma de suas referências confessas, o simbolismo – uma escola literária sofisticada, exótica e marginal à qual fazia jus. Basta saber que, quando daqui se foi, em 1906, a gente da capital já tinha se escandalizado com os dizeres e os vestires do jovem magricela conhecido como dr. Mosquito. No Distrito Federal, onde ganhou fama e peso na mesma proporção, sua notoriedade não seria menor. Amargou, por exemplo, encrencas com Machado de Assis, que não o queria na Academia Brasileira de Letras. Tinha língua ferina. E usou da imprensa para fazer chistes e para atrair raios e trovoadas, uma de suas especialidades. Cassiana, autora da tese de doutorado Decadismo e Simbolismo no Brasil (USP, 1981), se tornou uma expert não só em Emílio, mas em Emiliano Perneta, Dario Vellozo, Silveira Neto, Rocha Pombo e qualquer nome que tenha pelo menos passado perto do movimento. Não sabia, porém, que um dos mais ilustres paranaenses teria deitado raízes na vida e na obra de ninguém menos do que Carlos Drummond de Andrade – o mais festejado de toda a poesia brasileira. "Ele me disse ter sido influenciado pelo senso de humor de Emílio, lembra a professora, de posse de uma preciosa carta recebida do poeta por ocasião do lançamento de Obras Reunidas... Em busca do mapa genético da poesia feita no Paraná, o depoimento do escritor mineiro funciona como um achado. Da mesma maneira que Drummond não passou impunemente pelas palavras de Menezes publicadas na imprensa carioca, o estado em que nasceu jamais se curou do impacto criativo e performático dos adeptos do simbolismo. "Foi uma geração fora de série, que encontrou no Paraná um terreno fértil. Esse sucesso também se deve a João Itiberê da Cunha, que viveu na Bélgica e volta para cá no final do século 19, fazendo circular na cidade livros simbolistas", explica o professor do Departamento de Letras da UFPR, Edison José da Costa, sobre a escola que teve uma expansão restrita no país, mas que produziu expressões como Emílio, um marco como o catarinense Cruz e Sousa, e príncipes coroados, feito Emiliano Perneta. Foram famosas as diversas revistas do período. E é arriscado contabilizar o lugar que ocupam no imaginário das gerações futuras. Tanto que dele não se desprendeu uma Helena Kolody. Nem o agitador cultural Paulo Leminski, espécie de herdeiro histórico do recado deixado pelos freqüentadores do Templo das Musas, na Vila Isabel. As heranças podem ser listadas assim. Os simbolistas estabeleceram uma relação muito particular com a palavra. É próprio deles o burilamento do verso até não poder mais. O miniaturismo. A concisão. O perfeccionismo. A experimentação. A profusão de imagens em cada poema. O personalismo. Eram não por menos também dândis – homens extravagantes o bastante para botar a sociedade da época em estado de alerta, de desconfiança e de admiração, quase sempre na mesma medida. Para Cassiana Lacerda, muitas dessas características podem ser identificadas nas levas literárias seguintes à das primeiras décadas do século 20. Ela cita os versos mínimos de Kolody. A síntese obsessiva e trabalhosa dos textos de Dalton, mesmo sendo ele o mais importante representante do modernismo local e representante da reação ao o que os dândis representavam. E recorda a pesquisadora, pasmem, de ter visto Paulo Leminski muito à vontade num impecável terno de linho branco, que lhe caía bem, por sinal. "Ser dândi não está na roupa, é claro, mas na atitude extravagante, no ir contra a maré. Para mim, o Leminski era mais capricho do que relaxo; mais samurai do que bandido que falava latim, como quis o Toninho Vaz na biografia que escreveu", alfineta. Lacerda lembra que numa outra ocasião encontrou o poeta na rua e de ele ter dito que faria versos metrificados. Que tinha muita gente fazendo bobagem na poesia livre. Seria uma recaída simbolista? Mais do que isso. Para tratar da ligação de Paulo com os literatos do início do século 20, a professora responde citando a pequena obra poética Paideuma & Celebração do Poeta Leminski, assinada por Haroldo de Campos, publicada no selo Buquinista, da Feira do Poeta: "No templo neopitagórico / a mão do homem / paciente / recupera os salvados do incêndio / que devorou a Encyclopédie / e o retrato (togado) de Dario Vellozo / aliás Apolônio de Tyana (...) nos degraus iniciáticos / sentado / o fileleno Leminski / sob o emblema brônzeo do frontspício / paquera as Musas (...). Na próxima semana, não por menos, Cassiana fala do dandismo local e do simbolismo à Leminski na Feira do Livro de Porto Alegre, evento que tem o Paraná como estado homenageado deste ano. Biologia O escritor, poeta bissexto e crítico literário Miguel Sanches Neto identifica três traços "biológicos" na poesia feita no Paraná – o lirismo de Helena Kolody; a concisão e a sacada da poesia pautada pela publicidade, tal como a faz Solda ou Thadeu Wojciechowski; a tendência barroca, comum à última fase de Leminski, e que encontra eco na produção de Rodrigo Garcia Lopes e Josely Vianna Baptista, por exemplo. Por acréscimo, Sanches se afina com Cassiana Lacerda ao enxergar uma conexão de primeiro grau entre os simbolistas e o poeta a quem considera a única grande influência paranaense no gênero. "O Paulo freqüentou o templo neopitagórico, tinha preocupações com a linguagem e com a alta cultura, com os modos e com o mundo, distanciando-se das questões mais pedestres e rasteiras que tinham marcado o modernismo", comenta, referindo-se à escola que chegou tardiamente ao Paraná e teve sua expressão maior na prosa, não no verso, com exceção de Brasil Pinheiro Machado e suas seis poesias modernas. Leminskiano até a medula, o londrinense Rodrigo Garcia Lopes, autor de Solarium, Visibilia e do livro sonoro Polivox, vê, como não, no simbolismo a herança mais evidente da poesia do estado, que traz no sangue o sentido de etéreo, o amor ao que é vago e inefável, o indizível, o transcendente. Além do gosto pela musicalidade, e a necessidade de se expressar através de revistas literárias. Para o tempo em que havia a Pallium, O Cenáculo ou Azul, entre tantas, há correlatas como a Joaquim, a Raposa, o jornal Nicolau, ou mesmo a Coiote, da qual Lopes prepara a segunda edição. "Embora Londrina seja uma cidade que já nasce modernista, temos em comum com o simbolismo a ligação entre a poesia e a música, o que aqueles poetas souberam fazer muito bem. Rimbaud e Verlaine tentavam imitar nos versos a melodia de Wagner, faziam frases em que havia a evocação da música das palavras", diz o poeta do local que viu passar por seu cenário cultural gente como Arrigo Barnabé, Cida Moreira, Robson Borba, Ademir Assunção e Itamar Assumpção. Um laboratório de biotecnologia assinaria embaixo. José Carlos Fernandes — jornal Gazeta do Povo
Gritos e sussurros.
O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.Martin Luther King
— Não está vendo? - respondeu a senhora. - Vocês me colocaram ao lado de um negro. Não posso ficar aqui. Você precisa me dar outra poltrona!
— Por favor, acalme-se! - disse a aeromoça. - Infelizmente, todos os lugares estão ocupados. Porém, vou ver se ainda temos algum disponível.
A comissária se afasta e volta alguns minutos depois.
— Senhora, como eu disse, não há nenhum outro lugar livre na classe econômica. Falei com o comandante e ele confirmou. Temos apenas um lugar na primeira classe.
E antes que a mulher fizesse algum comentário, a comissária continuou:
— Não se permite que um passageiro da classe econômica se acomode na primeira classe. Porém, tendo em vista as circunstâncias, o comandante pensa que seria escandaloso obrigar um passageiro a viajar ao lado de uma pessoa desagradável.
E, dirigindo-se ao senhor negro, a comissária prosseguiu:
— Portanto, senhor, caso queira, por favor, pegue a sua bagagem de mão, pois destinamos para o senhor um lugar na primeira classe.
E todos os passageiros que assistiam à cena começaram a aplaudir, alguns de pé.
A seguinte história é fictícia. A mesma cena, em um vôo da Varig entre Paris e Rio de Janeiro. Uma mulher branca, de aproximadamente 50 anos, chegou ao seu lugar na classe econômica e viu que estava ao lado do ex-ministro José Dirceu. Visivelmente constrangida, chamou a comissária de bordo.
— Qual o problema, senhora? - perguntou a comissária.
— Sinto muito, mas é uma questão de consciência - respondeu a senhora. - Vocês me colocaram ao lado do ex-ministro José Dirceu. Nada de pessoal contra o ex-deputado cassado, mas não posso ficar aqui. Meus princípios exigem uma outra poltrona!
— Por favor, acalme-se! - disse a aeromoça. - Infelizmente, todos os lugares estão ocupados. Porém, vou ver se ainda temos algum disponível.
A comissária se afasta e volta alguns minutos depois.
— Senhora, como eu disse, não há nenhum outro lugar livre na classe econômica. Falei com o comandante e ele confirmou. Temos apenas um lugar na primeira classe.
E antes que a mulher fizesse algum comentário, a comissária continuou:
— Não se permite que um passageiro da classe econômica se acomode na primeira classe. Porém, tendo em vista as circunstâncias, o comandante arrumou um jeitinho para contornar esse desconforto.
E, dirigindo-se ao ex-deputado, a comissária prosseguiu:
— Ministro Zé Dirceu, por gentileza: eu apanho a sua bagagem de mão, pois destinamos para o senhor uma poltrona na primeira classe.
E todos os passageiros que assistiam à cena torceram o nariz. O mais exaltado gritou à constrangida senhora:
— Ô, madame! Não vê que está atrasando o vôo? O fato se passou no início da semana, na inauguração de uma quadra de esportes em escola estadual de Paulo Lopes, na Grande Florianópolis, com a presença do secretário estadual da Educação Diomário de Queiroz, políticos graúdos, banda de música e foguetório. Em meio à solenidade, o diretor da escola começa o discurso afirmando que não considerava a quadra de esportes inaugurada, porque a obra estava inconclusa. Os tijolos ainda não estavam bem amarrados e tudo poderia desabar a qualquer momento. Surpreso e constrangido, o Secretário da Educação pediu a palavra e declarou solenemente que a obra "estava desinaugurada". E saiu de fininho. (coluna Dante Mendonça, jornal O Estado do Paraná, domingo, 26/3/06)
Sábado, Março 25, 2006
Como ajardinar um jardim sem jardineiro nem jardinagem/Fraga.
Vocês aí – e nunca eu aqui – sabem bem como fazer florescer coisas defronte às suas casas, em suas avarandadas varandas, nos seus alpendres alpendredados ou em suas sacadíssimas sacadas. Minha única contribuição é informar vocês, que não conhecem a flora que eu conheço, quais plantas não plantar: as que têm o desplante de desmanchar prazeres botânicos, de enfear canteiros, de deflorar as expectativas primaveris. Selecionei alguns tipos típicos:Escapulidas – Notáveis pela ausência. A qualquer momento, se retraem, encolhem, somem do canteiro, caule e tudo, como se jamais tivessem existido ali. Delongas – Quem tiver paciência que me ignore. Essa cacheada espécie é um teste de devoção ao cultivo. Dificilmente se assiste ao desabrochar das delongas. Se quiser tê-las, plante os bulbos e aguarde 3 ou 4 primaveras, quem sabe. Antagônias – Se flores têm algum temperamento, são essas. Urtigas crescem longe delas. Pela petulante conformaçăo da corola, causam uma instantânea antipatia em quem as olha. Impropícias – Famílias educadas, com crianças ou pessoas idosas, devem evitar o plantio dessas mimosas florzinhas. Além dos estames e pistilos semelhantes a partes humanas que nem posso sugerir aqui, se esfregam umas às outras até atingir aquilo que muitos casais nem sempre conseguem. Promísculas – Lembram, no efeito escandaloso em gente moralista, as impropícias. Porém são mais ativas: se insinuam para qualquer outra flor por perto, chegando a despetalar as mais frágeis. Uma vergonha em cor púrpura. Desabonas – Devido à má aparência das pétalas, às cores desinteressantes, às folhas murchas e aos galhinhos pendentes, as desabonas prejudicam a reputação de qualquer jardineiro. As pessoas farão tsk, tsk, tsk para os seus canteiros. Lassidônias – Você acorda radiante, corre para admirar seu jardinzinho, e o quê vê? Não vê. Na seiva dessa planta há um hormônio, ócionila, que faz inverter seu crescimento: elas imbrotam. Condolências – A não ser que alguém tenha uma floricultura próxima de um cemitério, essa flor é um drama para o cultivo. O simples manuseio faz a pessoa cair em prantos. Pústulas – Sensível ou insensível, seu olfato não vai apreciar o olor dessa flor. Deplorávias – Floridas ou não, se mostram sempre em péssimo estado de conservação, por mais bem conservadas que estejam. Nem pense em oferecer um ramalhete à namorada. Negaceias – Embora singelamente atraentes, são impossíveis de colher. Com hastes ágeis, enganam mãos, escapam dos dedos. E pra quê servem flores que não podem se abuquesar para a mesa da sala? Paródias – Dotadas de extraordinária capacidade mimética, imitam muito bem verbenas, açucenas, dracenas e outras flores que rimem com essas. Mas, basta um segundo olhar para confirmar a falsidade. Como por desencanto, a admiração desaparece na hora. Usurpas e deturpas – Parasitas do mesmo ramo, têm hábito predador: se enfiam sob a terra, brotam junto de outra flor e assumem seu lugar, além de modificar as características florais das demais, desde rosas até antúrios. Arcaicas – Flores antigas, nem se usam mais. Com cálices e sépalas demodês, provocam enfado em quem as vê. A variedade mais comum é a prosaica, que viceja até entre mosaicos. Firulas – Espécie exibicionista. Carente e dependente da atenção do dono do jardim, tem movimentos chamativos. Um permanente incômodo, sobretudo para aqueles que têm ótima visão periférica.
Boca Livre.
Dicas de comer e beber nesta mui leal Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. Assado e Churrasco. Neste fim de semana, o amigo poderá estar comendo um assado, quando na verdade estará saboreando um churrasco. Sim, leitores, há diferença entre um e outro. É o que se verifica do verbete assado, que fomos perlustrar no vocabulário sul rio-grandense, verbete aquele de autoria de Luiz Carlos de Moraes. Vamos lá: "Assado e o que comum e errôneamente se da o nome de churrasco. O assado e feito no espeto, enquanto que o churrasco é atirado diretamente nas brasas para ser cozido. A came é assim assada, obedecendo a certas regras: procura-se quase sempre um lugar aprazível, eom baixo de árvores que dêem boa sombra à costa de um arroio, à sombra de um muro, ou ainda no galpão, se lugar melhor não existir. É muito comum ao passar-se por um arroio de boa aguada, corrente e fresca, e orlado de um bosque sombrio e limpo, ouvir-se dos lábios da viajante: "Que lugar lindo para um churrasco!". Fechado esse ligeiro parênteses, eis a regra do seu preparo: faz-se um fogo com toros de lenha que produzam boas brasas. Enquanto arde o fogo, prepara-se a came, espetando-a, sendo ela, a maioria das vezes, um costilhar, um matambre, etc. O espeto deve ser de madeira descascada ou de ferro, munido de aguçada ponta. Se o bocado a assar é mais comprido do que largo, a carne deve ser disposta no sentido da sua maior extensão, tendo-se o cuidado de não deixar caídas as partes laterais, o que se evita estaqueando a carne com pedaços de madeira, ou outro meio qualquer, de maneira que o assado se apresente aberto. Quando o pedaço a assar muito largo, usam-se dois ou mais espetos. Terminada essa primeira parte, crava-se o espeto obliquamente no solo, próximo ao fogo, mas suficientemente distanciado, para evitar que a carne seja lambida pelas labaredas. De início, nessa fase, a parte mais magra, fica voltada para o fogo, para que nao se perca grande quantidade de gordura, e, após, vai-se virando o espeto para que a carne fique assada de um modo uniforme. A proporção que as labaredas diminuem, vai-se aproximando o espeto as brasas. A operação da salga ser feita pouco a pouco, por meio de um ramo verde, embebido em salmoura ou depois de assada, se dá um banho de salmoura, de modo que a carne receba totalmente a quantidade de sal necessária. Isso feito, refoga-se o assado, e, aproxima-se novamente ao fogo. Quando começa a escorrer a gordura, no curso da operação, acontece levantar labaredas, o que prejudica o assado. Se elas atingirem a carne, motivo pelo qual elas devem ser extintas, já afastando-as, já apagando as por meio de água. Quando se dispõe de tempo, abre-se um rego, de mais ou menos meio metro ou mais, conforme a quantidade de espeto a ser empregado. O fogo será feito, então, dentro da cava, e os espetos cravados na borda, ou atravessados sobre ela. O assado com couro, e feito com o pedaco da carne sem ser esfolado (coreado como se diz no Rio Grande do Sul). Usa-se mais geralmente a picanha, o costilhar, o peito, etc. E assim preparado: retirado o pedaço, tem-se o cuidado de deixar que uma parte do couro sobressaia a superfície da carne, formando como que uma borda saliente, para atender o retraimento da pele por efeito do calor do fogo. Em seguida deposita-se o pedaço sobre a labareda, com a carne para cima. Queimado o pelo, e o assado retirado da labareda, indo, então, para o braseiro com a carne voltada para as brasas, com o devido cuidado para que não toque nelas. A salga é feita a proporção que a carne vai sendo assada. O assado, em geral, é comido com farinha de mandioca, podendo tambem ser essa subsituída por pão. Conforme o gosto de cada um, pode também ser o assado condimentado com pimenta e vinagre, ou usado ainda com salada ou "molho acebolado". Semana que vem, confira o verbete churrasco. Até lá. Barão de Tibagy (Curitiba, suplemento Almanaque, O Estado do Paraná, sexta-feira, 1º de junho de 1979)
Haiku.
Direto de Tóquio, recebo Haiku, Poetry Ancient & Modern, por Jackie Hardy. The haiku poems pulsates with the rhythms of nature. This beautiful anthology follows the elemental themes of earth, air, fire, water, wood and metal, and features the work of poets — both ancient and modern — from around the world. 256 páginas. Oiés.Sexta-feira, Março 24, 2006
Síntese/Fraga
Perguntou o menininho:— Paiê, o que é síntese?
Respondeu o pai:
— Síntese é a maneira de nos referirmos a um mesmo assunto, tema, fato ou matéria, de modo diferente do já conhecido ou enunciado, sob qualquer aspecto de comparação, seja ele de conteúdo ou de forma, eliminando-se informações, dados, detalhes, características etc, cujo valor ou importância permitam a omissão total e abrangente na nova descrição, sem que isso impeça o reconhecimento completo da referência que motivou esses cortes necessários, daí obtendo-se uma frase ou pequeno bloco de texto que, por sua especificidade deverá garantir a mesma interpretação outrora alcançada quando o tema primitivo apresentava-se por inteiro para exame, análise ou, simplesmente, leitura ou audição, isto é, por reconhecível semelhança em sua essência, dará a qualquer pessoa de mediana inteligência a oportunidade de avaliar integralmente o cerne da questão, sem nenhum prejuízo para a compreensão cognitiva, o que levará determinado sujeito a concluir dali todas as possibilidades de divagação e raciocínio inerentes à idéia principal agora expressa em poucos vocábulos, numa exposição subtraída de elementos supérfluos e que só tornam complicado o estudo sobre aquela afirmação primeira (objeto da redução praticada), sendo que, é óbvio, o sentido literal permanecerá mesmo que os termos desta feita utilizados para reprisar o pensamento não contenham, em si próprios, os fonemas e palavras idênticos aos antes aproveitados, resultando disso tudo uma sentença com sabor e som inteiramente novos, embora isso não traga dificuldade de espécie alguma para percebermos que a oração ficou mais curta, ganhando um tamanho notavelmente menor que a anterior, além de uma exatidão que afasta equívocos para quem a assimila, pois é evidente que os resumos são os grandes responsáveis pela melhoria na comunicação, significando economia de tempo e de paciência entre todos os seres humanos que têm o que dizer para os demais. Sinteticamente, é isso.
Restaurante do Beto.

Plínio, Édson de Vulcanis, Thadeu, Tatára, Solda e José Buffo.
O Colosso de Rodes.
Em 280 a.C., os navegantes que chegavam à ilha grega de Rodes, no Mediterrâneo, tinham que passar obrigatoriamente por entre as pernas de uma das sete maravilhas do mundo, O Colosso de Rodes. Quando era diretor da sucursal da Gazeta Mercantil em Curitiba, o jornalista Valério Fabris contava com um motorista muito simpático, expedito, arguto, vivaz e de fino faro. Poderia ter sido jornalista, não fosse sua característica mais notável, a síntese absoluta na análise dos fatos. Seria uma rara virtude jornalística, não fosse o seu dicionário resumido numa única palavra: "Colosso!". Valério Fabris é um melômano sofisticado. Carregava no carro do jornal uma coleção de fitas especialmente selecionadas. Numa das viagens, Fabris botou para rodar uma fita com o falecido promotor público Arthur Tramujas cantando sua poderosa versão de Summertime (... time, time / Child, the living's easy).— Seu Valério... um colosso! De fato, a rara interpretação de Tramujas para o grande sucesso de Janis Joplin é um colosso, e agora existem algumas cópias remasterizadas rodando por aí em CD. Num outro dia, a viatura do jornal parou num sinaleiro das imediações do Teatro Guaíra. Na faixa de pedestres, a bailarina Rita Pavão saindo do ensaio ainda de collant, linda, leve e solta.
— Seu Valério, olha que colosso! Páscoa de 1995, no Estádio Couto Pereira o Coritiba F.C. goleou o Atlético Paranaense por 5 a 1. O atacante Brandão foi "o cara" do jogo. A pedagógica derrota foi o início de nova vida para o Furacão. No carro da Gazeta Mercantil, um adesivo do Atlético se destacava, pois o motorista era atleticano fanático.
— Então, como foi o Atletiba de ontem?
— Seu Valério, perdemos de feio. Um colosso! Quando a ministra Zélia Cardoso de Mello seqüestrou a poupança nacional para os cofres de Fernando Collor de Mello, só uma palavra para resumir a situação.
— Seu Valério, que colosso! Era uma tarde nervosa de fechamento da edição diária, quando um pavoroso acidente matou uma criança e feriu gravemente a mãe, na esquina da Gazeta Mercantil, Rua Desembargador Motta com Alameda Princesa Izabel. As máquinas Olivetti pararam na redação, com a notícia da testemunha ocular!
— Seu Valério, pelo amor de Deus: foi um colosso! Uma das últimas vezes que Valério Fabris falou com o seu motorista foi na manhã de 11 de setembro de 2001. Fabris atendeu ao telefone e, no outro lado da linha, ele:
— Seu Valério, está vendo na televisão as Torres Gêmeas? Um colosso, seu Valério. Um colosso! Em 1959, o cineasta Sergio Leone iniciou sua carreira com um filme que fazia filas nos nossos tempos de piá, com seriado antes e troca de gibis depois. O Colosso de Rodes, reaproveitando cenários de outras produções de época rodadas nos estúdios da CineCittá. É o filme menor do brilhante Sergio Leone. Dizia que fizera o filme apenas para pagar uma lua-de-mel na Espanha. Fazendo uma associação com o filme, assim lembrei o apelido do motorista de Valério Fabris, quando o encontrei dia desses no bar Ao Distinto Cavalheiro. Rodes, este era o apelido do motorista do Valério Fabris. O apelido é um colosso de bom.
— Ou estou enganado, ou você era o secretário de Valério Fabris?
— Rever os amigos é um colosso!
Era o Rodes.
— Saudades do Valério Fabris! Aquele rapaz é um colosso!
— Pois é. Ele veio de Belo Horizonte para a festa em memória do Sergio Mercer!
— O Mercer, aquele era outro colosso! Rodes pediu um chope no balcão e se acotovelou, quando um circunstante enveredou a conversa para as atualidades:
— A senadora Ideli Salvatti perdeu a oportunidade de ficar com o bico calado. Quebraram o sigilo bancário do caseiro Francenildo, botaram o saldo na vitrine e ainda assim ela teve a cara-de-pau de dizer que "qualquer um pode esquecer seu extrato bancário na rua ou em outro lugar qualquer". Expedito, arguto, vivaz e de fino faro, Rodes continua colossal:
— Essa senadora catarina é um colosso! (Da coluna Dante Mendonça, jornal O Estado do Paraná, sexta-feira, 24/3/06)
Quinta-feira, Março 23, 2006
Carta.
Sr. Luis Inácio Lula da Silva: Quarta-feira, Março 22, 2006
Potylândia.
Para o indivíduo, toda cidade é um exagero. A cidade ideal é aquela onde se desenha o próprio mapa na palma da mão. Na cartografia humana, o que nos guia na cidade é o "mapa afetivo" de uma cidade diversa contida nela mesma.
Poty Lazzarotto talvez seja o artista mais visível em Curitiba. Bem mais que o escritor Dalton Trevisan, que pode ser observado diariamente, em carne e osso, indo e vindo do Alto da Rua XV, à procura de um ponto onde se encontre um conto.
Napoléon Potyguara Lazzarotto já não vive, mas se faz presente de norte a sul, de leste a oeste do mapa de Curitiba. No aeroporto e no parque, na praça e na parede, no monumento à história. Faz sentido quando os forasteiros de olhos desacostumados dizem que Curitiba é a "Potylândia".
Quando Poty era vivo de carne e osso, limpava a mostarda do bigode no Bar Triângulo, na Rua das Flores. Depois do "pernil com verde" e antes de esvaziar a regulamentar tulipa de chope. No "mapa afetivo" de Poty, todas as ruas davam mão para o "pernil com verde", e o cartunista Solda o saudava vez ou outra com essa frase que Lazzarotto nunca chegou a ouvir:
— Mostarda, mas não falha!
O mapa-múndi de Poty era bem reduzido: Paris, Rio de Janeiro e Curitiba, cujos mapas ele traçava na palma da mão. O pintor e desenhista foi quem inventou o que podemos chamar de "mapa afetivo" de uma cidade. O perímetro do afeto.
Em meados da década de oitenta, quando morava no Rio de Janeiro, um amigo carioca vinha conhecer Curitiba em viagem de turismo e pediu ao Potyguara os rumos do bom e do melhor da cidade, mais as coordenadas para conhecer as obras do artista espalhadas nesta "Potylândia".
Potyguara deixou o amigo maravilhado: o ilustrador de Guimarães Rosa desenhou o seu próprio e singular mapa de Curitiba em papel e nanquim, com avenidas, ruas, bairros, esquinas ilustradas. Os pontos com desenhos a bico de pena dos bares e restaurantes, o Mercado Municipal, o "pernil com verde", museus e livrarias, o Beco do Mijo, nos fundos da Catedral, no roteiro para conhecer Curitiba a pé.
O que mais encantava no “mapa afetivo" de Poty era a localização exata e detalhada em ilustrações de onde encontrar suas obras na cidade, começando pelo Aeroporto Afonso Pena, indo a museus e murais ao ar livre. Na cartografia de Poty, Curitiba se fez um exagero. A cidade precisa recuperar a que tínhamos na palma da mão. Por onde andará aquele "mapa afetivo", que podia ter sido impresso e distribuído para os milhares de participantes dessas conferências mundiais sobre biossegurança e diversidade.
DiverCidade está em cada um. Das diversas cidades dentro do mesmo perímetro urbano de Curitiba, os milhares de visitantes iriam conhecer a "Potylândia", uma cidade diversa do imaginário do artista. O jornalista Eduardo Fenianos acaba de lançar nesse COP/MOP um novo mapa turístico de Curitiba, em papel reciclado, mas está nos devendo outro, e a Prefeitura também: o mapa da "Potylândia", um redesenho revisto e ampliado do "mapa afetivo" de Napoleón Potyguara Lazzarotto.
Curitiba e Potylândia, duas cidades nascidas uma para a outra. A Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais faz aniversário em 29 de março, Napoléon Potyguara Lazzarotto também. Teremos fogos e festas, com convidados especiais da ONU e a platéia do Festival de Teatro de Curitiba.
Se não se faz tarde, a Fundação Cultural de Curitiba poderia criar a "Linha Potylândia", que partiria do Museu Oscar Niemeyer, passaria pelo Jardim Poty Lazzarotto, no Parque Tanguá, faria escalas no acervo ao ar livre, para enfim experimentar o chope e o "pernil com verde" na Rua das Flores.
Um "PotyTour", a "Linha Potylândia" seria servida de ônibus ilustrados e monitores treinados para percorrer o itinerário contando da vida venturosa desse muralista, desenhista, ilustrador e gravador que nasceu (1924) e morreu (1998) em Curitiba.
(Da coluna Dante Mendonça, jornal O Estado do Paraná, 22/3/06)
Terça-feira, Março 21, 2006
Quando não havia Internet, ele era o meu Google.
Há anos, quando ainda não havia Internet, a Besta dos Pinheirais era o meu Google. Qualquer questão, qualquer dúvida. Se estávamos juntos, bastava perguntar. Se ele estava em casa (não esqueci o telefone até hoje) era só ligar.Segunda-feira, Março 20, 2006
O efeito Matthäus.
Paraná, capital Babel. Curitiba é uma esquina do mundo durante as conferências mundiais de biossegurança e biodiversidade (COP/MOP). São milhares de especialistas dos quatro cantos do mundo reunidos no ExpoTrade, onde se realiza o evento da ONU, com três tradutores por metro quadrado, dizem. E, mesmo assim, não estão dando conta do recado. Especialmente depois da renúncia de Lothar Matthäus, os tradutores da delegação alemã se desdobram para explicar ao planeta o que está acontecendo na biosfera do Clube Atlético Paranaense. Até então, os representantes da Alemanha discutiam trivialidades ecológicas. Tipo assim, a influência da “bompa da chope” na camada de ozônio. Agora, essa é a principal pergunta que fazem aos alemães:— O que Lothar Matthäus foi fazer na Alemanha?
A resposta é uma outra pergunta.
— O que Lothar Matthäus estava fazendo aqui no Brasil? Matthäus faz 45 anos amanhã. O Atlético completa 82 aninhos no domingo. É de dar pena o estado psíquico dos alemães, tentando traduzir o inferno astral de Mário Celso Petraglia e separar o lixo que não é lixo da passagem de Lothar Matthäus por Curitiba. Foram exatos 16 dias de bola na rede, paixões e rock’ n’ roll; e o ídolo alemão descobriu que não existe pecado no lado de baixo do Equador. A aventura teve um saldo respeitável: seis vitórias, dois empates e um nocaute. Noves fora possíveis rebentos não contabilizados, que as más línguas insistem em atribuir ao calor senegalesco deste excepcional verão curitibano. Contando com a biodiversidade da beleza brasileira, a influência do buraco de ozônio e outros buracos. “O buraco é mais embaixo”, explicou o tradutor da delegação polonesa, lendo a última edição do jornal de maior circulação na Polônia, o “Gazeta Wyborcza”.
Com exclusividade para a nação rubro-negra, eis a manchete de ontem:
— Lothar Matthaeus odchodzi z Atletico Paranaense (Tradução: Lothar Matthäus saiu do Atlético Paranaense). E segue o texto: Gwiazda niemieckiej pilki noznej Lothar Matthaeus po dwóch miesiacach pracy zrezygnowal z funkcji trenera brazylijskiego zespolu Atletico Paranaense -poinformowal w sobote dziennik “Bild”.
— Brakuje mi zony Marijany i dzieci, które zostaly w Budapeszcie. Podróz z Europy do Kurytyby trwa 12 godzin. To bardzo daleko - powiedzial Matthaeus.
(Tradução: A estrela alemã de futebol declarou que “faz falta minha mulher Marijana e os filhos, que ficaram em Budapeste. A viagem da Europa a Curitiba dura 12 horas. Isto é muito longe”, declarou Matthäus). Quer dizer, por biossegurança frau Marijana Kestig Matthäus bateu o rolo de macarrão: “Ou ela (a luxúria tropical), ou eu!” O Furacão está nas páginas da “Oropa, França e Bahia”, na Polônia e até em Pernambuco, capital Recife. Porém, a atmosfera romântica que envolve o CT do Caju está prejudicando a contratação de um substituto para o técnico alemão. Conforme o que rola nas areias da praia da Boa Viagem, após a divulgação da foto comprometedora na revista “Placar”, o treinador Givanildo, do Santa Cruz, foi impedido por sua mulher de treinar times da capital paranaense, em especial o Atlético. A sra. Givanildo foi enfática: “Eu soube que Curitiba não é um lugar seguro para um técnico de futebol casado! E o meu Giva não vai para lá e pronto! É o efeito Matthäus. O clima erótico de Curitiba não afetou apenas o marido da sérvia-montenegrina Marijana Kestig.
Esfregando as mãos, um sueco de dois metros de altura perguntou ao tradutor:
— Who is Molly?
— Molly? Quem é essa tal de Molly, que todo mundo quer conhecer? - saiu pesquisando o tradutor.
O fotógrafo Orlando Kissner, que conhece Curitiba de velhos carnavais, explicou:
— Molly é uma senhora muito famosa no bairro São Braz, onde tem uma bela chácara de muitos cômodos.
— E por que ela é assim tão famosa?
Kissner, o Polaco, ficou numa saia justa, mas não perdeu o rebolado:
— Ela é especialista em organismos vivos modificados. Especialistas em biossegurança e biodiversidade estão discutindo um estranho fenômeno ecológico assinalado em Curitiba: a proliferação de pererecas nas nascentes do Rio Iguaçu e no bairro Umbará, especialmente. “Efeito Matthäus”, esse é o nome científico do fenômeno. (da coluna Dante Mendonça, jornal Tribuna do Paraná, segunda-feira, 20/3/06)

























































































































































































