Quarta-feira, Maio 31, 2006
Blowing in the wind?
0 leitor e a leitora de Idéias, possivelmente, já devem ter encontrado algum livro, ou mais de um, que não é possível parar de ler. Se o livro chegou em suas mãos de noite, então não houve sono até o ponto final da obra. Claro, sem dúvida, todos vocês já encontraram livros assim. E há um outro similar esperando portodos os que, como eu, são viciados, fanáticos por leitura. Trata-se de Crônicas [São Paulo: Editora Planeta do Brasil], de Bob Dylan, com tradução de Lúcia Brito e prefácio e revisão da tradução de Eduardo Bueno, o beatnik Peninha. Crônicas traz uma prosa contagiante, que pega o leitor na primeira linha e faz com ele, leitor, siga desesperadamente até o final. Mesmo que você não goste ou não conheça Bob Dylan, este livro tem uma força em cada palavra, em cada linha. Há uma força narrativa incomum. Dos contadores orais. Dos mestres narradores. Dylan está a falar sobre a sua trajetória; de norte-americano do interior ao estrelato na metrópole; de como surgiram letras e canções a como dá errado uma sessão de gravação; de como a força da mente ajuda e como essa força atrapalha; de como ressurgir das cinzas e como se arrebentar no auge. As vezes, dá a impressão de que Bob Dylan, na realidade, está a mitificar a si mesmo. Mas, mesmo que tudo seja falsificação, mesmo assim, o texto é irresistível. Prazer de leitura garantido. A maneira como Dylan construiu a narrativa revela domínio da arte de comunicar. Ele cria expectativas, não entrega o prometido facilmente e, de um jeito inesperado, surpreende. Não parece haver uma fórmula. Ao contrário. Parece que tudo é apresentado para o leitor, ali, na hora da leitura. A seguir, um fragmento, degustação para os leitores de Idéias: "Uma canção é como um sonho, e você tenta torná-la realidade. São como países estranhos nos quais você tem que entrar. Você pode escrever uma canção em qualquer lugar — estar em movimento ajuda. As vezes, pessoas que possuem o maior talento para escrever canções jamais escrevem nenhuma porque não estão em movimento". Márcio Renato dos Santos/Revista IdéiasAs Mulheres de Weggis.

Danielle de Sisti, nossa editora de Turismo, acaba de voltar da Suíça. Viajou a convite do Centro de Turismo Suíço e nos trouxe de Weggis alguns bons-bocados de chocolate e uma carta do nosso correspondente Massachussets da Silva. Na Copa do Mundo de 1970, Massachussets se perdeu a caminho do México e passou me-e-e-e-ses sem dar notícias. Desta feita, ele chegou ao destino, atesta Danielle: encontrou o velho jornalista sambando na passarela do samba que dá acesso ao campo de treinamentos da seleção brasileira, nos braços de uma mulata. O veterando cronista esportivo redigiu seu despacho numa conservada Remington, companheira de trabalhos desde a Copa de 50. (Massachussets da Silva, de Weggis) – Caros, a Suíça se tornou uma redução do Brasil. Na rua principal, um sambódromo; na passarela que dá acesso ao campo de treinamentos da seleção brasileira, um camelódromo. Tudo dominado de verde e amarelo, numa profusão de plumas e paetês: espetinho de churrasco, bife no pão, caipirinha e cerveja brasileira é o que há. Tem suíço no axé, até cambista e trombadinha. Um jornal local pintou com preconceito esta maravilha de cenário: “Os brasileiros acreditam que a vida só pode acontecer com criminalidade, engarrafamento e alegria”. O jornal só faltou dizer que a vida dos suíços não seria a mesma, não fossem nossas belas mulheres. As mulheres de Weggis. Sheila Soares o mundo já viu: varou a cerca e foi dar um amasso em Ronaldinho Gaúcho. A falsa loura de 30 anos se identificou como dona de uma loja de roupas em Eschembach, perto de Zurique: “O meu sonho era agarrar o Ronaldinho”. Conseguiu.Nos primeiros dia de treino, as brasileiras de Weggis fizeram a diferença. Uma delas muito especial. Paraibana, nasceu em João Pessoa, que tem as praias mais quentes do nordeste. E, pelo visto, em Weggis, suas mulheres têm a mesma temperatura. Mãe solteira, conheceu o suíço na praia do Picãozinho, onde os peixes coloridos dos corais vêm comer na mão dos banhistas, e seguiu o caminho da grande maioria das mulheres de Weggis. Casou com o marido de papel passado, contrato matrimonial que dá direito à casa, comida, roupa lavada e férias conjugais remuneradas.
No dia 24, primeiro treino da seleção brasileira, a paraibana levou a filha de 12 anos e o marido para a terceira fila do gargarejo, um pouco acima dos ouvidos da imprensa. Todos perfeitamente uniformizados de verde e amarelo, o animado suíço se destacava com uma bandeira na mão, enquanto a esposa destrambelhava: “Ronaldinho gordo gostoso!”. O maridão repetia: “Ronaldinho gordo gostoso!”. Quando Kaká corria pela lateral, o estádio ouvia: “Káká é um tesão!”. E o marido repetia: “Kaká é um tesão!”.
—Vocês não acham o meu marido uma gracinha? – dizia a paraibana, roubando o treino. “Eu ensino tudo pra ele na cama e ele me ensina a tirar leite de vaca. Esse bichinho é escolado comigo, e com sotaque paraibano! Não é llliiindo?”
Fenômeno era o suíço, falava alemão com sotaque paraibano:
— Marido, diz aí o que é que eu sou?
— Gostóóósa!
— Marido, diz aí o que você é?
— Gostosão tesão!
Quando a bola rolava para os pés de Roberto Carlos, a paraibana esbanjava no sotaque:
— Roberto Carlos, coxa grossa, vai lá em casa! Vai lá em casa que te mostro o que fazer com a bola, Roberto Carlos!
Quando Ronaldinho Gaúcho pegava na bola, um delírio:
— Ronaldinho, bota um aparelho na boca e vem aqui me beijar! Ronaldinho é llliiiindo! Llliiindo!
Enquanto a mulher caprichava nos adjetivos, o maridão suíço narrava o treino para um amigo, pelo telefone celular:
— Ronaldinho gorrrdo gostoso, Ronaldinho Gaúcho é lindo, Kaká é um tesão e Roberto Carlos coxa grrrossa vai lá em meu casa aprrrender com meu mulher o que fazerrr com a bola! E sorria feito um Papai Noel. Dante Mendonça(31/5/2006) O Estado do Paraná
Terça-feira, Maio 30, 2006
Segunda-feira, Maio 29, 2006
Vermelho em Santa.


Ontem, domingo, 28, recebi a visita em Santa Teresa do fotógrafo Américo Vermelho, que manda lembranças pra Curitiba, onde tem muitos amigos. Américo nasceu em Apucarana, trabalhou na imprensa da capital e chegou ao Rio há cerca de 30 anos. É um especialista em tratamento e recuperação gráfica das fotos. (Mas continua fotografando, atualmente para a Oldbrecht.) No flagrante aparece também o maior sucesso gastronômico do bairro, o restaurante especializado em frutos do mar que carrega uma peculiaridade: quando criado, há mais de 10 anos, servia apenas comida natural. O nome era mesmo Natural, mas a partir do momento que passou a abrir também à noite, com arroz, feijão e boemia, o nome mudou pra Sobrenatural. Tem o melhor peixe da cidade. A outra foto foi escolhida pelo Américo (eu apenas fiz o clic) e tinha uma razão de ser: os dois quadros da parede: a foto do Che, do Korda, e um cartum do Solda, retratando Paulo Leminski numa mesa de boteco dizendo: “Garçom, traz a saideira!”. (Ilustrou um texto meu, coff! coff!, publicado por Jaguar no Pasquim, em 89).(Foto Toninho Vaz, Rio, maio 2006)
Domingo, Maio 28, 2006
Não rasga, coração!
Mellinho era um conhecido promotor público em Curitiba. Faleceu de coração sensível, em todos os sentidos. Sabedor de sua ilimitada paixão pela seleção brasileira, ela não cabia num coração tão limitado, professava a filosofia esportiva de que "tudo o que os olhos não vêem, o coração não sente". Escritores e morte.
Lúcio Cardoso, o genial autor de Crônica da casa assassinada, com o perfil lutuoso e um pouco mórbido característico de sua personalidade, convida a amiga Rachel de Queiroz a visitar o necrotério. Rachel hesita, mas face aos inúmeros argumentos de Lúcio, a justificar que um escritor deveria experimentar não só epifanias, mas também “os abismos da existência”, acaba convencida e o acompanha até o IML carioca, na Rua Riachuelo.
Lá chegando, falta-lhe coragem para entrar. Fica na porta. Lúcio entra, sôfrego e um pouco irritado com a “covardia” de Rachel. Dali a cinco minutos, retorna - pálido, as mãos trêmulas, o olhar transtornado. E passa por Rachel, no hall da entrada, sem sequer lhe perceber a presença. Caminha rápido em direção à rua. Rachel vai atrás.Tonto, Lúcio Cardoso agarra-se ao primeiro poste e ali mesmo despeja um vômito avassalador. Rachel se aproxima e questiona: “Não te falei?!...”. Lúcio, antes de nova golfada na calçada, surpreende: “Não foram os cadáveres... Tenebrosos, sim... Mas o cheiro, Rachel, o cheiro...”.
Quem conta esta e outras histórias do grande autor mineiro é o meu amigo Ésio Macedo Ribeiro, que acaba de publicar, pela Nankin Editorial, um livro indispensável: O riso escuro ou O pavão de luto, minucioso percurso pela poesia de Lúcio Cardoso.Rosa e a morte.João Guimarães Rosa, o soberbo inventor de todo um mundo ficcional que é Grande Sertão: Veredas (50 anos da primeira edição, neste 2006!), considerado por muitos um dos mais importantes livros do século XX, diplomata, ex-médico de roça, era - afirmam os seus contemporâneos - extremamente feminil, embora heterossexual convicto.
Tinha, ainda, um gosto e uma alegria de viver que chegavam a irritar os mais casmurros. Apaixonado pelo ofício de escritor, senhor de glorioso casamento (com Araca) - e festejado por gregos e troianos - era, enfim, um homem feliz. Muito feliz. Extraordinariamente feliz.Místico, meio bruxo, postergou por mais de três anos sua posse na Academia Brasileira de Letras sob a alegação de que quando isto acontecesse, morreria. Dito e feito: ao tomar posse na ABL, depois de inúmeros adiamentos, ao chegar em casa sofreu um ataque cardíaco fulminante.
O fato é sobejamente conhecido do folclore rosiano. Mas o que ninguém esperava, face a um homem sempre feliz e que de certo modo teve uma morte “limpa”, foi a sua expressão de morto. No caixão, revela Antônio Carlos Villaça, nesta obra-prima que é O livro dos fragmentos, o seu rosto chegava a apavorar. Era o próprio semblante da angústia, de alguém que havia se assustado, de modo aterrorizador, frente à “indesejada das gentes”.
Um ríctus tomava-lhe o canto dos lábios, um ríctus de quem, visitado pela Morte, se recusara terminantemente a morrer. P.S.: O mais infame em ambas as histórias é que todos os “curiosos” da Morte aqui citados já passaram desta para outra - talvez menos inóspita. E da qual - inóspita ou não -, nenhum de nós, ai meu Deus!, escapará.
Wilson Bueno (28/5/2006) O Estado do Paraná
Sábado, Maio 27, 2006
Psiu.
Deu na mídia: “O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, anunciou uma campanha de seu governo contra o comportamento anti-social, prometendo duras multas para pessoas que tornem a vida de seus vizinhos um inferno, e aos que incomodam os demais com ruídos insuportáveis”. Rumo ao sem rumo.

Lá é onde você quer chegar? Se desoriente, que não tem erro.A celeste abóboda, lá, é abobada – com o que assiste embaixo. E o horizonte local, para circundar a imensa confusão que abarca, gira em torno dos 720º. Nas circunstâncias mais propícias, chega a locupletar 1080º .
A topografia de lá há muito já se transfigurou e o que era interminável planura agora é chatice sem-fim. Sim, a paisagem se avista, desde que à vista. Quanto à localização – aqui você está eternamente no advérbio aqui – há placas indicativas. Em letras a vencer.
Lá os cruzamentos, se se cruzam, seguem de onde não vieram pra onde não irão, e em cada encruzilhada nenhum despacho se vê – ninguém despacha mais nada por lá. As vias são largas, e nessa largueza cabem a mão, a mão boba, a contramão e as contradições, que trafegam trêfegas.
Por via da certeza de impunidade, o fluxo da capital e o de capital dão preferência um ao outro, circulando à vontade entre circulares também lampeiras. Essa notável facilidade de locomoção deve-se à monumental falta de um eixo ético.
De qualquer modo ou moto, siga em frente, a cidade tem excelente plano diretor. Mas como lá cada diretor tem seus planos por debaixo dos planos, o que resulta é uma invisível planificação oculta. Numa escala de um a milhão, todos os escalões se escalam aos milhões.
Repare nas silhuetas e fachadas dos prédios: seus ângulos – retos, agudos, obtusos – são sempre parentes em primeiro grau da vertigem. Os fios de prumo se aprumam, todos, por referências diagonais. E a ausência das esquinas não significa que não existam esquinaços – antes de retornar à realidade, cada visitante recebe o dele.
Continue, confie nos seus sentidos, sobretudo se lá não fizerem sentido nenhum. Sente a falta de sinceridade no ar? É o monóxido de hipocrisia. Quanto mais irrespirável, mais perto do despudor do poder você está. Se aspirar fundo, ganha um cargo de confiança.
Ah, preste atenção nos sons de lá. Você perceberá, sob o matraquear das maracutaias, o rumor dos mármores sobre os espelhos dágua. Hein, mármores não rumorejam? Vai ver é o ronronar das ilicitações, esparramadas ao sol da liberdade.
Lá, ao redor dos interesses construídos e bem defendidos, há outras áreas ainda preservadas, descampados onde a ganância brota sem exigir regas e viceja em paz. Nesse território sem lei, vacas ficam mansamente à espera do brejo, que nunca demora ir até elas.
Nesses e em todos os espaços, imensos (como a esperança que năo cabe lá, aliás,) você vai perder a direção incontáveis vezes. Épocas e nomes, lugares e fatos, eventos e memória, tudo se tumultua numa desordem imperativa de desmando e desfaçatez. Lá é a zorra do zorrilho, bicho que o reino da Dinamarca jamais cheirou igual.
Siga adiante. Não tem como errar: lá ninguém acerta nada mesmo.
Lá é Brasília.
Sexta-feira, Maio 26, 2006
Suave é a noite.

A rigor, o Léo (Gandelman) não deveria estar nesta foto, para melhor traduzir o que foi meu papo com a musa da Bossa Nova, Astrud Gilberto. Quis o destino que o primeiro livro biográfico que me ocupei na minha fase novayorquina, de estudos e equipagem, fosse justamente o de Stan Getz, com quem Astrud foi casada. O livro revela um fato interessante e eu aproveitei para saber se era também verdadeiro: depois de dias de ensaio do grupo brasileiro para a lendária apresentação no Carniege Hall, em 61, quando Astrud apenas emprestava a voz nos ensaios, Stan descobriu que ela não entraria no palco na grande noite. Intrigado, o saxofonista perguntou: “Mas ela não vai cantar com a gente por qual razão?”. E ouviu uma resposta machista de João Gilberto: “Ela apenas nos ajuda nos ensaios, pois é bem afinada”. Stan ficou petrificado e, após o estrondoso sucesso da temporada americana, conversou sério com Astrud que, aparentemente, esperava que alguém percebesse o que estava acontecendo. A partir desta conversa com Stan, ela começou uma carreira internacional e, no mesmo momento, os dois casaram, é claro! No dia desta foto, numa festa em Manhattan, 1997, Astrud confirmou a versão do biógrafo: “Foi bem assim que tudo aconteceu”.(agora, se o Leo não tinha nada que estar na foto, imagine os dois no canto esquerdo: de frente, Jorge Pontual, repórter da Globo News, e de costas, o então Ministro da Cultura, Luiz Roberto Nascimento e Silva.)(Da série Meus arquivos implacáveis)
Alckmin, esse desconhecido.

Se depender do calendário agrícola, Luiz Inácio Lula da Silva já pode solicitar a presença de um alfaiate em palácio para o feitio da fatiota de posse: alckmin é uma hortaliça cujos melhores preços ocorrem entre os meses de junho e outubro, exatamente na temporada pré-eleitoral, quando o produto se desvaloriza e é oferecido a preço de banana. Encontramos na Embrapa uma alentada biografia do alckmin, essa tão consumida hortaliça que poucos conhecem de sua origem e propriedades nutritivas. Ao contrário do que os próprios apreciadores de alckmin reconhecem, ele oferece sim algum sabor. Há quem goste e diga que alckmin tem o sabor da América Latina. De fato, é fruto de uma trepadeira originária da América Central e ilhas vizinhas. Já era conhecido na antigüidade pelos astecas e tinha grande destaque entre as demais hortaliças cultivadas na época. Alckmin tem sabor suave. Não tem exatamente o caráter da pimenta, porém é um ingrediente que tem a singular propriedade de agregar sabores alheios. É de fácil digestibilidade, rico em fibras e pobre em calorias. Destaca-se como fonte de potássio e fornece vitaminas A e C. Alckmin é um cucurbitáceo, assim como o pepino, as abóboras, o melão e a melancia. Na medicina caseira, o alckmin cozido sem sal é indicado principalmente para hipertensos, para problemas renais ou de bexiga. Na linguagem popular e chula, diz-se que “fulana dá mais que alckmin na cerca”. Segundo a última pesquisa CNT/Sensus, que aponta Lula vencedor já no primeiro turno, alckmin tem a preferência de 18,7% dos consumidores. Isto atesta os dados das pesquisas da Embrapa, que colocam o alckmin entre as dez hortaliças mais consumidas no Brasil. Entre os maiores estados produtores de alckmin destaca-se a Bahia, nos municípios de Jaguaquara, Itiruçu, Poções, Maracás, Jequié, Iguaí, Lafaiete Coutinho. A Embrapa estima que sejam cultivados 5.000 hectares de alckmin no Brasil. Os paulistas são os maiores consumidores e sabem que o alckmin tem uma grande diversidade quanto à forma, tamanho e cor. Os frutos podem ser arredondados ou terem a forma de pêra. A casca pode ser lisa ou com espinhos, com a cor variando de branco a verde bem escuro. No mercado há preferência pelos frutos de casca verde-clara, sem espinhos, com tamanho de 12 a 18 cm de comprimento (fruto graúdo) e 7 a 10 cm (fruto miúdo). Frutos passados apresentam a casca sem brilho e amarelada e com a ponta mais larga começando a se abrir. O alckmin é um fruto muito sensível, que se machuca com facilidade e a casca escurece rapidamente quando danificada. Portanto, trate o alckmin com cuidado, evitando causar ferimentos. As pragas que atacam o alckmin são os petistas, os grilos, brocas, lagartas, pulgões e as vaquinhas verdes, besourinhos que perfuram e destroem suas folhas. No mercado, certifique-se de que o alckmin esteja exposto em gôndolas refrigeradas para garantir a sua adequada conservação, pois quando mantido em condição ambiente, estraga-se rapidamente. A Embrapa ainda recomenda que o alckmin não deve ser comido cru. Precisa ser cozido e pode ser servido na forma de refogados, cremes, sopas, suflês, bolo, ou salada fria. Para consumo como refogado ou salada, prefira o alckmin mais novo, menor e com casca brilhante. Quando o alckmin está maduro, com a parte de baixo se abrindo, é excelente para a elaboração de suflês, pois encontra-se mais consistente e tem mais fibra. A casca pode ser removida antes ou após o cozimento. Quando o alckmin é bem novo, pode ser consumido com casca e miolo. Alckmin também pode ser consumido com as folhas, brotos e raízes. Os brotos de alckmin refogados são ricos em vitaminas B, C e sais minerais como cálcio, fósforo e ferro. A Embrapa adverte: corte e descasque sob água corrente, pois o alckmin têm uma liga que gruda nas mãos. Dante Mendonça [26/05/2006] O Estado do Paraná.Quinta-feira, Maio 25, 2006
Wild Side.

Curitiba underground, 1973, duplo flagrante nos porões d´A Chave: de costas, cabeludo como sempre, Ivo, o maior cantor do mundo; Helinho Pimentel, também conhecido como Carmem Miranda (hoje empresário da Rádio 91 FM, sempre ligado em rock); Judite Magalhães (resultado de uma pincelada de Loio Pérsio com Violeta Franco) e a moça de nome Verinha. Havia uma fissura no ar neste dia, dá pra notar? Minha idéia é escrever sobre esta foto, enfocando dez anos antes e dez anos depois (coisa pra 300 pgs) tentando explicar porque o rapaz que estava ali dentro não morreu de overdose 48 horas depois. Lindo também o desenho da mangueira serpenteando o chão encardido... (Foto Toninho Vaz, da série Meus arquivos implacáveis)Quarta-feira, Maio 24, 2006
Sinônimo de felicidade.
O presidente francês Jacques Chirac nos honra com sua visita de hoje até sexta-feira. No Palácio do Planalto, deve brindar “a tradicional amizade entre a França e o Brasil” com champagne. Não fosse protocolarmente contraditório e irônico, Chirac poderia presentear, por aquele feliz momento, ao casal Lula da Silva com um champagne Veuve Clicquot, junto com um exemplar do livro Champagne - a história deste especial vinho que é sinônimo de amizade e momentos felizes. Um champagne e um livro, Jacques Chirac não poderia escolher melhor presente. Por certo seria uma contradição, o protocolo bem sabe que o presidente brasileiro costuma alimentar o espírito com bastantes líquidos e poucas, muito poucas letras. Mas, em se tratando do champagne e da Champagne - o par perfeito, no masculino é o vinho, no feminino é a região -, tudo neles é contraditório e irônico, o que dá aos nativos da região (champenois) o que um escritor chamou de “tendência à contradição”: “Precisa-se de um solo pobre para produzir bom champagne; usam-se uvas pretas para fazer vinho branco; o cego via estrelas; o homem que dizem ter colocado bolhas no champagne na verdade trabalhou a maior parte de sua vida para eliminá-las”. Os autores de Champagne, Don e Petie Kladstrup (também autores de Vinho & Guerra) apontam que “a maior de todas as ironias, entretanto, é a Champagne, onde ocorreram algumas das batalhas mais amargas da humanidade, ter sido o local de nascimento de um vinho que o mundo inteiro identifica com momentos felizes e amizade”. Um champagne e um livro, não há companhia melhor. E um livro sobre o champagne, com um champagne, é ainda melhor. Afinal, o que o champagne tem? Como num toque de varinha mágica, as pessoas começam a sorrir, relaxar e até fantasiar. “Com certeza - afirma o casal Kladstrup -, nenhum outro vinho prestou-se tanto à poesia, à arte e ao exagero.” Casanova o considerava um “equipamento essencial à sedução”. Coco Chanel dizia que bebia o vinho da contradição somente em duas ocasiões: “Quando estava apaixonada e quando não estava apaixonada”. Lily Bolinger, dama de uma das grandes famílias da história da Champagne, ia além do contraditório: “Bebo champagne quando estou alegre e quando estou triste. Algumas vezes bebo quando estou sozinha. Se estou acompanhada, considero-o obrigatório. Bebo uns golinhos quando estou com fome. Fora isso, não toco nele - a não ser, é claro, que esteja com sede”. O champagne sempre foi a bebida da hora em qualquer hora. Quando os autores perguntaram a Philippe Bourguignon, um dos maiores sommeliers do mundo, qual considerava o melhor horário para beber champagne, ele respondeu: “Quando termino de cortar grama”. Joan Fontain diz, sonhadora, para Louis Jourdan, no filme Carta de uma desconhecida: “O champagne é muito mais saboroso depois da meia-noite, você não acha?”. Oscar Wilde, quando chegou à França, disse aos funcionários da alfândega: “Nada tenho a declarar senão o meu gênio”. Sobre o champagne, disse a que veio: “Só as pessoas sem imaginação não conseguem encontrar um motivo para beber champagne”. Para Winston Churchill, o champagne “tornava sua inteligência mais ágil”. De fato, durante a Primeira Guerra, Churchill usou o argumento para libertar os champenois dos invasores bebedores de cerveja: “Lembrem-se, cavalheiros - disse -, não é só pela França que estamos lutando, é pela Champagne também!”. A Casa da França, quem mais vende champagne em Curitiba, e a Livrarias Curitiba, quem mais vende livros na cidade, deveriam formar parceria: junto com o champagne (Veuve Clicquot - R$ 150,00), o livro. Junto com o livro (Champagne, 223 páginas, Jorge Zahar Editor - R$ 28,90), o champagne. Um par perfeito, um presente perfeito - com as bênçãos do monge Dom Pérignon e Santa Helena, a padroeira do vinho. Dante Mendonça [24/05/2006] O Estado do Paraná
Uma recente estatística, desta semana, aponta a existência de 40 milhões de blogues no mundo. Neste exato momento, o número está crescendo. Têm blogues de tudo: diário de meretrizes, trincheiras políticas, padres românticos e jogadores de futebol. Sem contar confissões safadas, punks filosóficos e cartunistas sagazes. Velhos, moças e rapazes. Estudos apontam a vida útil da maioria dos blogues de dois a seis meses. Daí o número astronômico. Blogues ativos, com mais de um ano, são expressivamente menos numerosos. Portanto, a rede deve ter um vasto cemitério de blogues inativos. Ainda assim, o fenômeno é de impressionar. Quer queira, quer não, os blogues são uma notável revolução na comunicação moderna. Mais que isso, uma anárquica e formidável democratização.O escritor e jornalista João Antonio, a quem conheci em São Paulo, nos idos de 1978, cunhou a expressão "imprensa nanica" para jornais feitos naquela década com o intuito de servir de fluxo alternativo a assuntos não abordados na grande imprensa. Estes jornais como o Pasquim, Opinião, Movimento, Ex, Extra, Coojornal, De Fato, Scaps, entre muitos outros, eram feitos com tremendo esforço, driblando censuras política e econômica, enfrentando toda série de dificuldades e esbarrando numa distribuição errática. Os blogues de hoje são exatamente o oposto: feitos sem grande custo econômico, com extrema liberdade, facilidade de acesso numa escala mundial. Uma espécie dinâmica de jornal alternativo. Os velhos nanicos demoravam trinta dias ou mais para serem feitos. Em uma semana um blogue tem mais informações e conteúdo, com charme, dedicação e criatividade. Os jornalões, assim como fizeram na imprensa nanica, tentam cooptar o novo movimento, esta nova imprensa nanica. Mas a força blogueira mundial é incontrolável. É como se um planeta tentasse conter uma força universal. Moinhos de vento que se cuidem. Dom Quixote não está sozinho... E desta vez sem ditadura para aporrinhar. Edílson Pereira é jornalista e autor teatralTerça-feira, Maio 23, 2006
Segunda-feira, Maio 22, 2006
Quem é Quem.
Nosso fotógrafo, num momento de rara habilidade, conseguiu flagrar o Professor Thimpor quando se dirigia à sua charrete importada da Alemanha. Além de astrólogo profissional, ele é formado em Cibernética Descartável, pela Universidade de Tarétsias, onde deixou toda a sua educação.Antes de se tornar um dos mais renomados astrólogos deste país, levava uma vida desregrada, até ser preso nas Antilhas como contrabandista de molinhas de isqueiro. Hoje, apesar do pequeno salário que ganha, se diz um cidadão feliz, até que a morte o devore. É casado com Abigail Pires da Rosa y Gasset, com quem tentou, inutilmente, ter filhos inteligentes. Aqui ele está sem a sua famosa verve, pois tomou banho com sabonete medicinal e perdeu toda a graça.Alles blau etc. e tal.
Domingo, Maio 21, 2006
Personagens da Semana.

Nesta última semana, a cena brasileira nos apresentou novos e surpreendentes personagens. Pela ordem de entrada, e pela importância do palco, nenhum deles ganhou tanta atenção de público e crítica quanto o bandoleiro Marcola, líder do PCC. Ao governador Cláudio Lembo, brilhante coadjuvante, coube interpretar a melhor frase: “Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa”. No Paraná, o personagem da semana vem da pequena cidade de Campo Largo, na Região Metropolitana de Curitiba, num enredo que já acumula mais de cinco mil páginas na Polícia Federal. Sábado, Maio 20, 2006
Dois brasileiros são premiados no exterior.
Desenho de Jotaa. A ilustração de José Antonio, do Piauí, ironiza a polêmica criada a partir de charge que representava o profeta Maomé (e que causou protestos em vários países). João Vieira brincou com um desenho diferente no meio de imagens aparentemente iguais.
O grande prêmio foi para o cartunista Musa Gümüs, da Turquia. A premiação será no fim de junho. Os vencedores ganharão troféus, uma quantia em dinheiro (não divulgada) e garrafas de vinho da região do Porto.
O Porto Cartoon-World Festival deste ano teve como tema a desertificação e a degradação da terra. O salão de humor recebeu 1360 trabalhos, vindos de 50 países. Mais de 200 foram de brasileiros, que registraram o maior número de participações.
A grande qualidade dos trabalhos, termos do próprio júri, fez com que 10 ilustrações recebessem menção honrosa. Os dois brasileiros estão entre os selecionados.
Aliteração da alteração.

No início era o éden sem desdém.Por bilhões de eras, era o turbilhão pavoroso; vaporoso e aquoso. Por bilênios ígneos, por desígnio algum, o magno magma jorrou em jatos. Sem estigmas nem enigmas. A lava era púrpura e o céu, plúmbeo. Ácidos regavam crostas agrestes. Rios ferruginosos, rugindo em magenta. Nos mares, marés corrosivas. Fluxos e refluxos sáxeos, fênix com ovos de ônix. Nos ares, troares e ribombares: trovões destravando trevas. Turvas terras, avulsas e convulsas. Na tonitroante genealogia da geologia, a tônica incomodação tectônica – estertores milenares, tremores seculares. No reinício primevo, o sossego dos sismos.
Reverberante e verdejante, a pacífica pastoral das superfícies. Tempos propícios, vicejam minúcias, jardins de delícias, pelúcia das planícies aos precipícios. Tudo germina e nada termina: capins, aipins, cupins e micuins; cipós, ipês, igarapés, iguanas, guaranás, ananás; aroeiras, araucárias, araras, aranhas, ariranhas; baobás, babuinos, bambus, badejos, brejos, bem-te-vis, besouros, bisões, butiás, buritis, oitis, sagüis, anis; emas, dracenas, açucenas, verbenas; bromélias; camélias, adálias, tílias; salmões, salamandras, samambaias, sapucaias; relvas, selvas, sálvias, malvas; riachos, mochos, carunchos; grutas, gretas, grous, grilos, guacos, guanacos. Flora e fauna fácil e farta, firme e forte, freqüente e feliz.
No desinício, um ávido avoado.
O marmanjo, num átimo, desarranja o átomo. Despeja dejetos dos seus desejos abjetos. Infla o peito pelo efeito estufa. Põe súlfur no futuro. Derrama mercúrio, derrete os pólos, derruba o paraíso, derrota o planeta. Quando não intoxica, oxida. Exulta e relaxa no lixo, na inexorável luxúria da lixívia. O caos é seu chão e em seus êxitos o seu exílio. Se exuma mas não examina seu nexo. Nunca se exime. Ex-símio exímio. Extinto.
Super Nova.

Esta é Estrela Leminski que, ao nascer, surpreendia a ciência por dispensar uso de telescópio de observação. Na idade desta foto já fazia parte da constelação e hoje confirma as qualidades inerentes de um astro: transparência, brilho próprio, tudo na velocidade da luz. A baterista do Casca de Nós pode ser vista a olho nu ou através de discos voadores pelo site da banda, cujo link está ai no alto, à direita. Enquanto escrevo, nas colinas cariocas, ela está em Belo Horizonte lançando seu livro “Cupido: Cuspido e Escarrado”, obra da editora Ame o Poema, de Porto Alegre. (Foto Toninho Vaz, Curitiba, 19 e bolinha – da série Meus arquivos implacáveis)Sexta-feira, Maio 19, 2006
Não faça do celular uma arma.

O bandoleiro Marcola, de dentro de uma penitenciária de segurança máxima, deu entrevista à imprensa pelo celular e nos próximos dias deve inaugurar uma revenda de telefones no local, além de criar um blog na internet para discutir com a comunidade do PCC os próximos passos da facção.Marcos Camacho, o popular Marcola, confirmou que o PCC é o responsável pelos dias de terror em São Paulo: “Se a gente fosse ouvido e atendido dentro da Constituição e dentro da lei, nada disso teria acontecido”, disse. Marcola afirmou ainda que os mais de 100 ataques foram planejados através do celular na própria sexta-feira da semana passada, primeiro dia dos atentados praticados no Estado de São Paulo. Segundo ele, “a intenção foi a de chamar a atenção da imprensa e da população para a defesa dos direitos dos presos”.
As autoridades incompetentes estão ainda perplexas, negam que o bandoleiro tenha conseguido falar pelo celular: “Claro que ele está incomunicável. Vamos ao Poder Judiciário pedir esclarecimento” - afirmou o governador Cláudio Lembo, pelo celular. Outra autoridade incompetente, também pelo celular, afirmou que “não é normal” que um preso consiga usar o telefone celular de dentro do presídio de segurança máxima.
O telefone celular se transformou no inimigo público número um. Se em São Paulo o celular nas mãos do PCC provocou um banho de sangue, nas mãos de um chato, o famigerado aparelho é uma arma letal não só na cadeia: no cinema e no teatro, especialmente, o celular quase tem provocado verdadeiras carnificinas.
Nos restaurantes, muitos já vêm defendendo a criação de três áreas restritas: fumantes, não fumantes e portadores de celular, que ele pode causar câncer no ouvido. Dentro do próprio PCC, existem dissidências: os que ainda usam celular e aqueles que já não suportam mais o hino do Corinthians tocando nas celas em horas das mais impróprias.
Mais que uma ferramenta do crime, o celular pode ser motivo de crime: quantas vezes já pensamos em deletar aquele infeliz companheiro de bar que não larga a mão do celular, senta-levanta, atende intermináveis chamadas, num desfile peripatético na calçada em frente? O telefone móvel é ferramenta do crime não apenas dentro de presídios, conferências, concertos de música clássica, reuniões de negócio e, sobretudo, no trânsito.
Ao contrário das ações do PCC, o celular não foi feito para matar ninguém. Mas o aparelho se transformou numa arma de verdade, conforme a história de um armeiro que construiu um revólver com a aparência de um telefone celular: o celular-revólver teria surgido na Europa, quando policiais holandeses realizavam uma batida antidrogas em Amsterdam. Pouco tempo depois, um contrabandista de origem croata teria sido preso com algumas dessas armas supostamente provenientes da Iugoslávia.
Consta nos anais da internet que em São Paulo - só podia ser - duas dessas armas já foram apreendidas, sendo uma delas com calibre 380 mm e outra com calibre 9 mm, privativo das forças armadas.
Se o celular-pistola existe, é mais um motivo para qualquer um ficar ressabiado com o “viciado do celular”: ele pode ser um sorrateiro meliante. Ninguém vai assaltar o estabelecimento com uma mamadeira em punho, a polícia adverte. Normalmente usam armas de brinquedo ou imitações feitas de matéria plástica, e agora celulares.
Pouca gente ficaria amedrontada com o engravatado na fila do cinema portando um telefone celular ou uma mamadeira. Ao abordar o imbecil que atende seguidas chamadas do celular durante um filme, todo cuidado é pouco: a ligação telefônica pode ter conseqüências fatais.
O Estado do Paraná/19/5/2006
Quinta-feira, Maio 18, 2006
Nicolau era uma flauta.

Este que vocês vêm encarando a câmera é mesmo Paulo Francis, o jornalista bem informado que zarpou deste mundo em 97. No canto esquerdo, quase imperceptível, um exemplar do saudoso NICOLAU — o que, para meio entendedor, uma palavra basta. Depois veio o Jaime Lerner, nossa grande entidade cultural, e acabou com a brincadeira. Foto Toninho Vaz — NY, 19 e bolinha.
Na velha questão sobre a origem da humanidade, eu defendo o meio-termo. Um empate entre Darwin e Deus. Aceito a tese darwiniana de que o Homem descende do macaco, mas acho que Deus criou a mulher. E nós somos a conseqüência daquele momento mágico em que o proto-homem, deslocando-se de galho em galho pela floresta primeva, chegou na planície de Eden e viu a mulher pela primeira vez. Imagine a cena. O homem-macaco de boca aberta, escondido pela folhagem, olhando aquela maravilha: uma mulher recém-feita. Como Vênus recém-pintada por Botticelli, com a tinta fresca. Eva espreguiçando-se à beira do Tigre. Ou era o Eufrates? Enfim, Eva no seu jardim, ainda úmida da criação. Eva esfregando os olhos. Eva examinando o próprio corpo. Eva retorcendo-se para olhar-se atrás e alisando as próprias ancas, satisfeita. Eva olhando-se no rio, ajeitando os longos cabelos, depois sorrindo para a própria imagem. Seus dentes perfeitos faiscando ao sol do Paraíso. E o quase-homem babando no seu galho. E, com muito esforço, formulando um pensamento no seu cérebro primitivo. "Fêmea é isso, não aquela macaca que eu tenho em casa." Há controvérsias a respeito, mas os teólogos acreditam que quando Eva foi criada por Deus tinha entre 19 e 23 anos. E, ela reinou sozinha no Paraíso por duas luas. E, instruída por Deus, deu nome às coisas e aos bichos. E chamou o rio de rio e a grama de grama, e a árvore de árvore, e aquele estranho ser que desceu da árvore e ficou olhando para ela como um cachorro, de Homem. E quando o Homem sugeriu que coabitassem no Paraíso e começassem outra espécie, Eva riu, concordou só para ter o que fazer, mas disse que ele ainda precisaria evoluir muito para chegar aos pés dela. E desde então temos tentado. Ninguém pode dizer que não temos tentado.Quarta-feira, Maio 17, 2006
Terça-feira, Maio 16, 2006
A ordem agora é morrer nas próprias casas. Uma das frases que mais me marcou nas últimas semanas foi justamente a frase de Sara Joanna Gould, uma americaninha de 21 anos que tá fazendo intercâmbio no Brasil. Ela falou pra Revista da Folha: " O que me surpreende não é a pobreza, comum na América Latina, mas sim a riqueza, o número de milionários num país como o Brasil". Sacaram? Vocês que agora estão escondidos em suas casas com medo de saírem às ruas pra tomar uma inocente cerveja ou pra ir à um cinema depois de um dia cansativo de trampo e pavor? Vocês sacaram que isso que vocês estão passando nesse momento é rotina nas favelas cariocas? O toque de recolher, o abaixar as portas, o rezar baixinho pra que ninguém ouça. Às vezes tão baixinho que nem Deus ouve. E a gente faz de conta que tá acontecendo longe daqui, num país distante de alguma fábula de terror. E agora você tá vendo os buzões incendiados, as estações de metrô metralhadas, e você tá dentro do trem fantasma. E você pergunta pra mim o que eu penso disso? Eu não sou político, não faço parte de nenhuma igreja, não sou banqueiro nem empresário. Não lucro com nenhuma espécie de proibição. Mas tem gente lucrando, não tem? O pouco dinheiro que ganho trabalhando é pra pagar as contas e comprar livros. E você vem perguntar pra mim o que eu acho disso? Você acha que isso aí é só uma guerra de polícia e bandido? Faz a autópsia da situação, Brother. Com atitudes meia boca não vai acontecer nada de fato. Não vou gastar meus 1.600 toques com palavrório empolado. Libera tudo meu irmão, divide o bolo, libera as drogas, a pirataria e a putaria, deixa todo mundo trabalhar livremente e serem donos de suas próprias vidas. Oportunidade pra todo mundo melhorar de vida. Iguala as condições pra batata não assar. Mas é claro que isso não vai acontecer, não é? Então não perguntem pra mim o que eu acho disso. Nunca perguntem para alguém libertário como eu o que acho de algo assim. Você tá com a bunda no inferno e quer manter a dita refrigerada? Eu tô em casa, mas prefiro optar por não morrer aqui. Ainda posso fazer isso. Vou sair pra tomar uma cerveja. Se eu ainda tivesse um pai, arrastava ele junto comigo. Meu nome é Mário Bortolotto e não há nada que eu goste mais do que um pingado e um pão com manteiga depois de uma noite de sinuca. Mário Bortolotto/Folha de S. Paulo
Segunda-feira, Maio 15, 2006

"...Se o resultado do mais amplo e grave caso de corrupção no Brasil for isto - três cassações na Câmara e muito falatório - haverá conseqüências perigosas. A agenda anticorrupção é ampla e complexa. Não é apenas a briga para saber quem vai ganhar a próxima eleição. Não é uma luta contra o Presidente Lula.
A corrupção é moralmente repugnante e inimiga de todos os avanços que a sociedade busca. A luta pela democracia marcou, com os valores da liberdade e do estado de direito, as gerações mais velhas do Brasil. As novas estão tendo seus valores minados pela falta de punição dos culpados, pelo descaramento, pela disseminação dos atos de corrupção no país. Como disse aqui: 43 milhões de eleitores têm 28 anos ou menos, ou seja, nasceram a partir do ano em que acabou o AI-5 no Brasil. Esta geração pode concluir que a democracia não vale o que custa. Se concluir, o país será terreno para qualquer aventura autoritária."
Miriam Leitão — O Globo

























































































































































































































