Segunda-feira, Julho 31, 2006
Neblina (radiografia de uma manhã).

Se for verdade que costumo praguejar contra o calor de 40 graus do verão, também é verdade que me regozijo com o outono e o inverno da Cidade Maravilhosa. Agora, por exemplo, 7 horas e a neblina anuncia uma manhã fria (13º), limpa e ensolarada. Quer melhor? Providencie uma xícara de café fumegante e uma música suave pra tocar: When Joanna Loved Me, com Paul Desmond, por exemplo, pode ser terapêutico. Nada de cigarros, como manda o clichê – continuo fora da indústria.Se houver tempo para ler um poema de inspiração matinal (antes da leitura do jornal), faça exatamente o contrário da simplicidade e puxe da prateleira o labirinto de Borges, o único poeta com moral pra rimar água com água e rio com rio:
Mirar o rio, que é de tempo e água,
Às vezes, pelas tardes, uma face
7 e 30 da matina. Do estúdio onde faço estas anotações posso enxergar no maciço da Tijuca, entre o denso nevoeiro, a majestosa colina conhecida como A Cara do Gigante, logo acima do Morro dos Prazeres. Levanto e vou até a janela: clic. À direita, como um espelho d´água, vejo nesgas da baía de Guanabara e da ponte Rio-Niterói. Ao fundo, quase no horizonte e aparentemente aos pés do Dedo de Deus, posso imaginar, mas não posso ver as labaredas da refinaria de Manguinhos, agora cobertas pelo nevoeiro. Com o foco da violência desviado para São Paulo, esta imensidão de cidade que se espraia até a Baixada Fluminense vive raros dias de trégua e calmaria, se considerarmos roubos de carros e assaltos relâmpagos como crimes secundários. A tendência de um espírito construtivista como o meu, cansado de guerra, é congelar a imagem e eternizar o equilíbrio majestoso da natureza, a harmonia dos contrários. É o que a Marta Medeiros chama de “momento zen”; deixar para sempre na memória a parte suave e “boa” da vida. Ou da narrativa. Então, com os olhos fechados para o sol e o peito aberto para o abismo, continuo meu obstinado propósito de tentar evaporar – para acordar dois minutos depois. Vamos nessa?
Toninho Vaz, de Santa Teresa
(Para Maria Clara, uma harmonia de 4 anos)
Domingo, Julho 30, 2006
Cerimônias de adeus.

Harpia, aranha/ sabedoria de rapina e de enredar, de enredar / Perua, piranha / Minha energia é que mantém você suspensa no ar / Pra rua!, se manda / Sai do meu sangue, sanguessuga, que só sabe sugar / Pirata, malandra / me deixa gozar, me deixa gozar (Não enche, de Caetano Veloso). O circo não pode parar, nem mesmo perante a morte. Nos Estados Unidos surgiram recentemente várias empresas especializadas na produção de festas para velórios. A animada família enlutada procura a funerária da alegria e passa o perfil do falecido. Se o sujeito cultivava o prazer de reunir os amigos para jantar e degustar vinhos de boa cepa, muito fácil. Os produtores providenciam um amplo salão de festas com cozinha anexa, contratam um bom gourmet, um sommelier com sua bem provida carta de vinhos e está feito o féretro festivo. Com o corpo estendido na mesa principal. Seria um pouco mais difícil para os amigos enlutados se o saudoso praticasse alpinismo e seu último desejo fosse ter suas cinzas lançadas do pico de uma montanha, com a presença todos amigos e parentes. Almas sensíveis se sentem chocadas com a novidade mercadológica que muito tem prosperado no hemisfério norte, tantos são os foliões dispostos a não perder nenhuma chance de comemorar a vida, mesmo depois de mortos. Nas cerimônias fúnebres das colônias imigrantes, um dia de velório é pouco, dois é bom, três é melhor ainda. Em muitas comunidades mais retiradas, as condolências duram três dias. Seja velório de alemão, espanhol, japonês ou italiano. Principalmente nos passamentos eslavos e italianos, três dias é o tempo justo para reunir um polaco de cada colônia. Quando parentes e amigos mais distantes estão chegando, os mais vizinhos já estão se despedindo. E a festa, digamos, a “chorradéirra” continua - com muito bolo de fubá e café com leite, canja de galinha na madrugada, maionese e frango assado com farofa durante o dia. Vinho e cerveja não podem faltar. E mais da conta. Já presenciei um velório onde foi chamado às pressas um marceneiro para remendar o caixão, minutos antes da caleça fúnebre partir rumo ao cemitério no alto do morro. Um dos parentes passou na cozinha para abrir a garrafa de cerveja, e nada de achar o abridor. Foi então à sala de visitas, onde estava o venerado, firmou a tampa da garrafa na borda do caixão e - PLAFTT!!! - abriu a garrafa, mas a tampa de metal tirou uma lasca de mais de um palmo na madeira. Até a viúva escondeu uma risada com as mãos. “Quando eu morrer” - canta o compositor popular - “não quero choro nem vela”. No Brasil, já se adotou o hábito de puxar aplausos para defuntos famosos, quando o caixão é alçado à tumba. O que em muitos casos soa bem falso, principalmente na presença das câmeras de televisão. De vaias e apupos com o corpo presente, ainda não se tem notícia. Deve ser pelo caráter cordial do brasileiro. Mesmo sendo um juramentado canalha, o defunto tem direito a um minuto de silêncio no campo de futebol. De uma forma ou de outra, a cerimônia do adeus é um momento de contrição, quando o respeitoso silêncio reverencia os méritos daquele que parte. Uma reverência que só não pode ser dedicada à máfia de políticos sanguesssugas que se locupletaram de doentes e desvalidos à beira da morte. Vamos guardar os nomes, anotar os endereços. A essa corja nossa brava gente deve dedicar, nas eleições de outubro, as cerimônias de adeus. Um carnaval profano na partida para o inferno, vinho e cerveja, ruidosas manifestações de júbilo nos proclamas de falecimento político. Foguetório, com o povo atrás do trio elétrico cantando com Caetano Veloso: “Sai do meu sangue, sanguessuga, que só sabe sugar / Pirata, malandra / me deixa gozar, me deixa gozar”. Dante Mendonça [30/07/2006] O Estado do ParanáSábado, Julho 29, 2006
Gráfica — Arte Internacional nº 57
Hermenegildo Sábat, uruguaio que adotou a Argentina para ensinar a arte do cartunismo. Margo Chase, americana que assina os álbuns de Prince e Madonna e faz história nos Estados Unidos. Ikko Tanaka, japonês e sofisticado em sua tipografia oriental que encanta o Ocidente. Eduardo Pappalardo, brasileiro de São Paulo que faz da fotografia uma janela para um olhar todo especial. Walter Mancini, brasileiro e cidadão do mundo com suas colagens, pacotes mágicos cheios de arte e elaboração com as letras do alfabeto. Escala, agência publicitária de Porto Alegre em nosso espaço especial na publicação. Como se vê, a Gráfica - Arte Internacional n° 57 dispensa qualquer adjetivo. Só cabe mesmo dizer que é um prazer compartilhar esta edição com você.Giem Guimarães — Diretor Geral/Gráfica Posigraf.Wow!
Depois de ter parado para tomar todas num bar clandestino, o motorista de um ônibus no Zimbabwe percebeu que os 20 doentes mentais que deveria levar para um asilo em Bulawayo, fugiram. Sexta-feira, Julho 28, 2006
Quinta-feira, Julho 27, 2006
O que é que os outros vão dizer?
Cresci à sombra dessa frase-ameaça, símbolo / síntese/ totem da nossa (curitibana) pudicícia, timidez, excesso de respeito pela opinião alheia.Os outros são uma loucura.Tem um que. Tem um outro. Tem um que outro. E tem cada outro que vou te contar.
Outro é o tipo de negócio que nunca falta. Para cada um que sim, tem um outro que não. E talvez um outro. A opinião dos outros já me tirou o apetite. Um outro não me deixou dormir. Teve certas camisas que nunca usei por causa dos outros.Outro caso são as outras. A outra. Eu sou a outra na vida dele. O fato é que não se pode viver sem essa estranha companhia: os outros. Quem são os outros? Metafísica pergunta que Universidade alguma responde.Não é qualquer um que é o outro. Basta um pouco de intimidade, ela se vai o outro, transformado em íntimo, a pior modalidade de outro que se pode imaginar.Nos anos 60, a intelectualidade curitibana era toda sartreana. Até os marxistas eram, secretamente, acendendo, em público, uma vela a Marx e, em casa, no recesso do lar, um círio (Jamil Snege acendia um sírio) ao casal Sartre- Simone.
O que mais fazer numa cidade sem portas, nem janelas?Extrapolo.
Tudo o que eu queria dizer é que, com Sartre, aprendemos a escrever outro com maiúscula. O Outro. Aí o caso é mais sério.O outro, virando o Outro, transformava-se numa espécie de monstro da família de Drácula, Nosferatu, Frankenstein, Monstro da lagoa negra, Fuscão Preto, INPS, Abominável Homem das neves.
Aprendemos, ainda, a outridade, o outrimento, tudo modalidades de manifestações desse prestigioso portento.Alguns exageraram nessa paixão pelo outro.
Um dia, acordaram, foram ao espelho. E lá estava o Outro refletido no reflexivo vidro do banheiro. E fizeram a barba do Outro mesmo.
Hoje os tempos são outros. Outros os hábitos, outras as preocupações. Mas, vez por outra, ainda me lembro daquele monstro com o carinho com que lembramos das visagens e assombrações da infância.
E só.
Hoje, pra mim, o outro entra por um ouvido.
E sai por outro. Paulo Leminski.Fim de Semana – suplemento de O Estado do Paraná – edição de 12 de novembro de 1982.
O Sol (nas bancas de revistas).


Toninho Vaz, de Santa Teresa
Quarta-feira, Julho 26, 2006
O preço da paisagem.
Terça-feira, Julho 25, 2006
Wilson Bueno no Miami Herald.
Crist na Grécia.
Dear Sir We would like to congratulate you for having won an Honorary Mention for the Rhodes 3rd International Cartoon Exhibition 2006 ‘ Quo Vadis Terra’. We will cover your Hotel accommodation if you are able to be here for the award ceremony and opening of the Exhibition on 1st of September 2006.Please let me know as soon as possible for Hotel reservations.
Sincerely
Iris Mavraki.
Segunda-feira, Julho 24, 2006
Restaurante zaponês.
Restaurante popular localizado em Harajuku, ao lado do parque YoYogi, cujo "Ramen" (sopa com macarão — de origem chinesa) é um dos melhores da cidade. Detalhe: no verão é servido gelado, com cubos de gelo. Na foto, o chefe manda uma saudação aos leitores do blog do Soruda-san! George Schpatoff, de Tóquio.Memória analógica.

Torres e seu bonezinho: descobrindo talentos.Eu tinha memorizado apenas dois ou três, aqueles que me pareceram mais impressionantes, e mandei um deles:
Fêmea? Sei é que sou tão macho
que sorvo o pênis mais próximo
Melhor ainda se for amado
só para ter de volta
o que por uma ira genética
me fora mutilado
O meu recital improvisado provocou um visível impacto no Torres, que ficou olhando para o ar imaginando o rosto andrógino da moça. E quis saber: “Os outros são da mesma qualidade?”
Toninho Vaz, de Santa Teresa
Domingo, Julho 23, 2006
Gianfrancesco Guarnieri — 1934/2006.
"A questão da transformação, eu acho que continua. Não escrevo nada que não vá transformar. Agora, ao mesmo tempo, não posso me esquecer daquela tendência à ingenuidade na nossa juventude. De achar que vai dar tudo certo, é assim mesmo, ah, não tem galho, porque a gente sempre termina ganhando. Depois, percebemos que não era nada disso. O que realmente não admito é deixar a bola cair. Há momentos em que cai; puxa, tudo é uma bosta. Mas isso é um momento e, depois, deixa de frescura, bicho, vai em frente".Divisões mal divididas.

Alguém já dividiu a humanidade ao meio: entre aqueles que dividem a humanidade em dois grupos e os que não. Subdividir o dividido tem sido um prazer que divide as pessoas. Na divisa entre uns e outros, a tentação é encontrar divisores não tão previsíveis, ou pelo menos mais inesperados. Como nada na vida é indivisível – a não ser a desgraça alheia – aqui vão algumas divisões cujo quociente é, como tudo na vida, inexato. A humanidade se divide entre os que acham que o pão cai sempre com a manteiga virada pra baixo e os que não sabem o que é manteiga.A humanidade se divide entre os que pulam a cerca e os que passam por baixo dos alambrados moralistas.A humanidade se divide entre xiitas da mesma tribo e xiitas de outras tribos.A humanidade se divide entre os formados que conseguiram vaga no mercado e os formados conformados.A humanidade se divide entre os que batem na madeira por superstição e os que fazem toc-toc na fórmica por deboche ecológico.A humanidade se divide entre os que aspiram por enxaquecas menosdolorosas e os que aspiram por aspirinas mais eficazes.A humanidade se divide entre os manipulados pela mídia e os manipulados pela desinformação.A humanidade se divide em doidos varridos e doidos com vassouras.Etc.Um verso prodígio.

Alfred Kinsey (1894-1956), célebre pioneiro da sexologia, responsável pelo não menos célebre Relatório Kinsey, que mapeou, ao final dos anos 40, o comportamento sexual dos americanos - para escândalo, na época, de puritanos e novos puritanos -, foi um ser humano de rara precocidade. Mas precoces somos muitos. O Zoológico de Catanduvas.

No dia 12 de outubro do ano passado, esta coluna arriscou dizer que a transferência de Fernandinho Beira-Mar para Santa Catarina, naquela temporada, tinha uma justificativa: a celebridade desejava degustar o chope artesanal da Oktoberfest e conhecer os destinos turísticos dos vizinhos ao sul. Dizia então, “o Paraná que o aguarde!”. Sábado, Julho 22, 2006
EU E O LÍBANO - Denúncia mínima de sentimentos máximos.

Agora chega. Tenho que vomitar alguma coisa que ingeri na leitura do noticiário sobre as atrocidades no Líbano. Vocês estão vendo isso, meninos? Minha psique, nas últimas 72 horas, tentava proteger-me de um estresse emocional fazendo com que eu não passasse das manchetes dos jornais, virando a página antes de conhecer os detalhes: ATAQUE DE ISRAEL MATA 27 CIVIS; BOMBARDEIOS DESTROEM CENTRO HISTÓRICO DE BEIRUTE; ISRAEL SE DECLARA EM GUERRA. E a minha paciência foi acompanhando as ondulações do meu estômago, antídoto contra a retenção das fezes: cagar algumas coisas e vomitar outras, eis a medicina. Se ninguém fizer nada para interromper a violência no Oriente Médio, não me restará outra alternativa se não me matar em solidariedade. Vou me auto-imolar com gasolina e fósforo, deixando a dois metros da tocha humana a denúncia mínima dos meus sentimentos máximos. Pode não ser tão eficiente quanto me espatifar em chamas nas torres gêmeas, mas os elementos bizarros podem atrair o interesse internacional. Não digam que não avisei. Todos aqueles que hoje se calam haverão de se reconhecer covardes diante do impacto da minha sentença: uns com medo de ser expurgados das rodas financeiras e sociais (em SP este sentimento é forte), outros com medo de serem apontados como anti-semitas ou, no sentido contrário, nazistas da era moderna. A grande maioria, entretanto, vai se calar por ignorância involuntária, pois não sabe que os judeus deixaram de ser vítimas para se transformar em algozes. É a barbárie branca que movimenta o capital financeiro, com a cumplicidade de Bush e da ONU, que procura evitar embaraços para seu anfitrião. Qual o tamanho da dívida do Império Branco com suas colônias além-mar e minorias raciais e religiosas? Quem poderá esperar momentos de paz diante desta escalada de violência camuflada de autodefesa de Israel? A história explica, mas o Dr. Freud não quer pegar o serviço. A guerra do petróleo está deflagrada e aos deuses pagãos compete salvar as nossas crianças. As imagens da televisão, entretanto, mostram que as crianças do Líbano foram abandonadas: elas choram à noite durante os bombardeios e, segundo depoimento de uma vítima, ficam eletrizadas – de lábios trêmulos – quando descobrem que não é um sonho. Ou pesadelo. A retirada de multidões de estrangeiros, incluindo cerca de 200 brasileiros que estão sendo embarcados em aviões da FAB, pode abrir caminho para um genocídio assustador. De onde estou, posso ver Bush segurando a mão do moribundo Sharon, com o polegar para baixo, imitando a sentença dos grandes imperadores romanos. Como diz o porteiro Gabriel, o lúcido, do alto dos seus cabelos brancos, lembrando a invasão do Iraque: “Não gosto deste Bush. Se o Brizola fosse vivo diria que ele é uma marmota em conservas querendo dominar o petróleo.” Toninho Vaz, de Santa TeresaSexta-feira, Julho 21, 2006
Suzane e Cravinhos cumprirão pena em prisões no interior de SP.
Condenados na madrugada deste sábado pelo envolvimento no assassinato do casal Manfred e Marísia von Richthofen, em 2002, os irmãos Daniel e Cristian Cravinhos e Suzane von Richthofen --filha das vítimas-- cumprirão a pena em unidades prisionais no interior de São Paulo. Os três dormiram, ao longo da semana, em carceragens de delegacias na cidade de São Paulo devido ao julgamento do caso, realizado no fórum da Barra Funda (zona oeste). Com o término do júri, Suzane voltará para Rio Claro (175 km a noroeste de São Paulo), onde já estava presa. Os irmãos serão levados para a penitenciária de Tremembé (138 km a nordeste de São Paulo). Os Cravinhos estavam no CDP (Centro de Detenção Provisória) de Pinheiros (zona oeste de São Paulo) desde 1º de junho, transferidos da penitenciária de Itirapina (231 km a noroeste de São Paulo). No dia 5 do mesmo mês, quando deveria ter ocorrido o julgamento, os advogados dos irmãos alegaram cerceamento de defesa e não compareceram ao fórum da Barra Funda, adiando a sessão. Suzane e o então namorado, Daniel, foram condenados na madrugada deste sábado a 39 anos de reclusão e seis meses de detenção pelo crime. Cristian pegou 38 anos de reclusão e seis meses de detenção. Eles não poderão recorrer em liberdade. (Folha Online)Lobby do atraso.
À socapa, quando todas as atenções estavam voltadas para a Copa do Mundo, o Congresso Nacional aprovou o projeto de lei complementar n° 79/2004, que amplia a reserva de mercado para jornalistas. Se for sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ate ilustradores e arquivistas terão de possuir habilitação superior em jornalismo para atuar. A norma é duplamente inoportuna. Ela chega sem discussão nenhuma e ocorre num momento em que o Supremo Tribunal Federal se prepara para julgar o mérito da necessidade do diploma para o exercício da profissão, conforme estabelecido pelo decreto-lei n° 972, baixado em 1969 pela Junta Militar com base no AI-5 e que contínua em vigor. A necessidade de habilitação específica para manifestar o que quer que seja em qualquer meio (TV, rádio, jornais, internet etc) viola a liberdade de expressão, garantida na Carta de 1988. Os defensores da medida argumentam que a nova regulamentação pouco altera o "statu quo". Não seriam muitas, afinal, as inovações que o projeto traz em relação ao decreto-lei E verdade, mas isso porque esse estatuto é em muitos aspectos ignorado. Se fosse cumprido à risca, só poderiam ser publicados num jornal textos — inclusive artigos de colaboradores e cartas de leitores — de quem tivesse registro especial no Ministério do Trabalho. A norma proposta pelo Congresso Nacional consagra essa sandice, contra a corrente mundial No resto do planeta, a discussão se dá em torno das fronteiras cada vez mais tênues entre a figura do jornalista e a do cidadão, como o atesta, com vigor, o fenômeno dos "blogs". Espera-se que o presidente tenha o bom senso de vetar mais essa investida do lobby de sindicatos de jornalistas e de escolas de comunicação contra as liberdades democráticas. Folha de São Paulo, 20/7/2006Sexo e eleição, irmão.

O governador Roberto Requião e o escritor Jamil Snege eram mais que amigos. Eram quase irmãos. Em 1982, com José Richa e Saul Raiz disputando o governo, Requião estreava nas urnas como candidato a deputado estadual, quando Snege escreveu uma crônica de consolo ao velho companheiro, publicada no suplemento de variedades Fim de Semana – sexta-feira, 22 de outubro –, do qual eu era editor, ao lado de Maí Nascimento e Aramis Millarch. Encartado neste O Estado do Paraná, o tablóide era um luxo. Toda semana vinha com uma longa e descontraída entrevista. Na edição daquele Fim de Semana, por exemplo, o entrevistado era o livreiro comunista Aristides Vinholes, o imaginário candidato a governador de Jamil Snege. Miran, Solda, Pancho e Swain assinavam os cartuns. Na contra-capa, Paulo Leminski se revezava com Snege. Faziam companhia a Sérgio Mercer, o Barão de Tibagi da página de crítica gastronômica. Agora nos palanques da reeleição, Roberto Requião já não é mais – por supuesto - aquele fogoso quarentão que estreava nas urnas. Mas o texto de Jamil Snege, com o mesmo título acima, ainda continua jovem e viçoso. - Me esqueci que existe sexo.Quem me diz isso, a voz entrecortada de suspiros, é um amigo candidato cujo nome omito para não comprometer sua campanha.
Tranqüilizo-o:
- Bobagem, Roberto Requião, isso passa.
Ele continua, olhar de vaca vendo trem passar.
- Desde o dia da convenção não bato mais o ponto.
- Não faz tanto tempo assim – intervenho, na tentativa de consolá-lo.
- Tenho pena da Nega, coitadinha – ele retorna, um tremor afetuoso na voz.
- Ela compreenderá. A política tem dessas coisas.
- Mas aí é demais – ele se levanta e caminha em direção ao WC, pára, desiste e volta a sentar-se.
- Veja o Richa e o Saul – insisto, – você acha que eles estão comparecendo regularmente?
Seu olhar acende-se de repente, um lampejo de vida na testa vincada:
- Será?
- Claro. E o Ney Braga? E o Alvaro Dias? O Norton Macedo? O Alencar Furtado? Pode crer, furtaram-se todos.
- Você acha? – seus olhinhos brilham comovidos.
- Tenho informações seguras.
- Mas eu é desde a convenção, aquele domingo no Atlético...
- Eles também. Dizem que quem perde tempo com sexo depois da convenção não se elege.
- Quem falou isso? – ele volta a me encarar duro.
Procuro ganhar tempo para formular uma resposta convincente.
- Hã? Acho que foi o Lula. É – bato na testa, – foi o Lula, durante uma reunião de sindicato.
- Que sindicato?
- Sei lá, acho que o sindicato lá dos metalúrgicos.
Ele fica por um momento pensativo. Súbito, explode numa risada:
- Quer dizer que o Saul e o Richa só trepam em palanque?
- E olhe lá. Tem cara que nem no palanque trepa.
- E a mulherada em casa?
- É aquilo que você sabe. Mau humor, berros, beliscão nas crianças, bronca na empregada...
Ele volta a ficar pensativo:
- A Nega está assim (suspiro).
- Converse com ela. Explique que ninguém é bom de voto e de cama ao mesmo tempo.
- Ela concorda. Mas agora começou a ler Capricho.
- Você não leu as memórias de Jânio? Dona Eloá lia Grande Hotel.
- Qual é o pior?
- O quê?
- Grande Hotel ou Capricho?
- Acho que Grande Hotel. Capricho é mais politizada.
- E o Edésio Passos?
- O que tem o Edésio?
- Viu como ele está ficando barrigudo?
- Pois é. Retenção hormonal. O Vilela também. Até o Edson Sá está com uma barriguinha.
- Nessas alturas, o campeão deve ser o Anibal Curi.
- Tá eleito.
Ele volta a ficar pensativo, um vinco fundo na testa.
- E eu, será que estou eleito?
- Depende. Que dia foi a convenção?
- 18 de julho.
- 18 de julho para 15 de novembro são, deixa eu ver, 120 dias.
- Acha que é pouco?
- Não sei, não. Acho que você devia ter parado antes.
- A Nega me chutava.
- Chutava, mas você ganhava. Afinal, o que é melhor: o sexo ou o poder?
- O poder, claro – ele ri, sacudindo alegremente o pó dos comícios.
Concordamos: com o poder você pode f... o povo inteiro.Dante Mendonça (21/7/2006/O Estado do Paraná.
Quinta-feira, Julho 20, 2006
Paulo Leminski, o Polaco.
meu amigo
desta vez
eu não vou
a morte
é um vício
muito antigo
só que nunca
aconteceu
comigo
pode ir
que eu não ligo
eu fico por aqui
separando
o tijolo do trigo
(7/6/89)
Quarta-feira, Julho 19, 2006
O analfabeto político.
O pior analfabeto é o analfabeto político.Ele não ouve, não fala, nem participa dos
acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço
do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel,
do sapato e do remédio
dependem de decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que
se orgulha e estufa o peito dizendo que
Não sabe o imbecil que, da sua ignorância nasce
o corrupto e o lacaio dos exploradores do povo.
Acredite se quiser.

A cúpula do PT criou uma cartilha para proteger Lula das gafes do Lula. Alguns conselhos básicos de comportamento que resguardem o patrimônio eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva. Se faz tarde a cartilha. Assim distante do eleitorado, grande parte dos eleitores podem identificar no presidente apenas uma caricatura do Lula de velhos tempos. Com seu jeito desinibido, expansivo, extrovertido de ser, o ex-governador paulista saiu apalpando mãos, braços e ombros dos comensais. Heraldo Ditzel foi o último a ser efusivamente cumprimentado e, para diversão dos presentes, retribuiu o abraço do urso com um pedido:
— Governador, gostaria que o senhor falasse com a minha esposa em Curitiba. Pode ser?
— O amigo é de Curitiba? Que maravilha! Sou muito grato com aquela progressista e ordeira capital, guardo lá importantes correligionários. Por favor, terei muito prazer em saudar sua esposa.
Heraldo discou e passou o telefone a Maluf.
— Minha senhora, muito prazer! Tenho a satisfação de estar aqui com o seu marido. E veja bem: sou testemunha de que ele está num ambiente familiar e muito bem comportado, por sinal. Fique descansada, o maridão está entre os amigos paulistas!
Dito isso, Paulo Maluf se calou por um breve instante e desligou o aparelho abruptamente. Em seguida, passou o aparelho às mãos do engenheiro e, com uma expressão um tanto desolada, murmurou como se para si mesmo:
—Ela pensou que estava falando com o Tom Cavalcante! O decálogo da reeleição tem o pressuposto de evitar gafes comprometedoras. Porém, pode induzir o eleitor a confundir o personagem com a caricatura. Repetindo a cena na campanha eleitoral, e num hipotético encontro de Heraldo Ditzel com Luiz Inácio Lula da Silva no interior de São Paulo, pelo telefone a senhora Ditzel deve reagir da mesma forma:
— Se Bussunda morto está... então é você de novo, Tom Cavalcante?Dante Mendonça [19/07/2006]
Terça-feira, Julho 18, 2006
Elementar, meu caro Fraga.
Sandro del Prete.
Seu Editor:
Certo, MCE, como tantos
gênios, é incomparável.
Pero, seus influenciados -
quando capazes de proezas -
merecem, de direito, pelo
menos a citação nominal,
né?
Esse David MacDonald é brilhante
em ilusões de ótica, é sempre
referido em sites do gênero.
Aqui, ele até descreve como fez
a coisa.
http://illusionsetc.blogspot.com/2006/05/terrace-optical-illusion.html
Tem um italiano que pegou
o mesmo desafio e aplicou
ao xadrez. É uma imagem
muito procurada na All Posters.
http://www.illuweb.it/artisti/delprete/delpgg07.htm
Aliás, essa ilusão dos planos
inconciliáveis, levou o fotógrafo
Tim Jensen a tentar o inacreditável.
E, como disse o poeta Jean Cocteau,
"não sabendo que era impossível,
ele foi lá e fez." Aqui, a prova:
http://www.dpchallenge.com/how.php?HOW_ID=27
Sei que nada disso pode
ser útil ou interessante
pro blog. Mas, hoje, era
o que a Padaria Fraga
tinha a oferecer.
Segunda-feira, Julho 17, 2006
Eu e as eleições (estratégia mínima)
Domingo, Julho 16, 2006
De onde vêm as palavras?

O leitor poderá encontrar, em qualquer livraria que se preze, o produto final de sete anos do extraordinário trabalho de um jornalista que só não se tornou filólogo por acaso. Falo do carioca Márcio Bueno, que não é meu parente, mas autor do mais que delicioso A Origem Curiosa das Palavras (José Olympio, 264 págs, R$ 34,00, formato 16 x 23 cm). Extenso e acordado projeto. Barato garantido para quem nele viaje e em seus verbetes.A palavra alameda, por exemplo, leitor, atualmente designa rua ou avenida tendo às margens qualquer tipo de árvore. No começo o nome era aplicado somente a vias sombreadas por “álamos”... Já alarme, nos ensina Márcio Bueno, procede da expressão all’arme, que significa, em bom italiano, “às armas”. O brado era usado para alertar a tropa ante a investida do inimigo.Aos que se comprazem em chamar o Paulo Zulu, aquele homenzarrão, de “manequim”, não sabem da história nem o começo - o termo procede do neerlandês - manneken. E sabem o que significava antes que o Zulu virasse galã? “Homem insignificante”, “homenzinho”. Man - homem. Neken - diminuto.Quando chamamos alpinista ao nosso herói Jorge Niclewicz, que já chegou ao topo do Aconcágua, só não erramos porque o uso sistemático da palavra acabou por incorporá-la ao idioma. “Alpinista”, na origem, era só para designar quem escalava os Alpes... Tanto assim que no espanhol de nuestra América, alpinista é “andinista”, uma clara referência aos Andes.Biruta, esta uma descoberta exclusiva de Márcio Bueno, é, sabemos, um saco de lona cônico que, nos aeroportos, principalmente, é fixado no alto de um mastro para indicar a direção do vento. Em razão de seus movimentos descontrolados, o termo acabou por também designar “pessoa amalucada”. E não o contrário, como muita gente pensa. E quem poderia supor que a palavra canalha tem a ver com “cachorro”? Pois tem, e muito, leitor. O termo deriva do italiano, de “canaglia” - cachorrada, cachorrice, cachorreira... Já dundum - aquela bala que quase matou o Ronald Reagan, e que explode no impacto, muitos aí podem estar pensando-a como um vocábulo onomatopaico, isto é, que imita o som que produz, como “xixi”, por exemplo. Quem assim pensou, errou - “dundum” vem do nome da localidade indiana Dum Dum, onde foi desenvolvido o projétil.E xará, então, vejam que coisa curiosa - usado para designar “homônimo”, vem do tupi onde “xe’rerá” quer dizer “meu nome”. Tão curioso quanto a etimologia de xereta, que procede do verbo “cheirar” e designa o indivíduo que vive metendo o nariz onde não é chamado.O que não é o caso do “xe’rerá” Bueno, autor do impagável A Origem Curiosa das Palavras, mas talvez, ao menos hoje, deste vosso Bueno que em vez de dissertar sobre fugacidades, seu legítimo ofício, mete-se a demarcar a origem das palavras... Mas tenho, fiquem sabendo, além da proteção e guarda de Mussa José Assis, a avalizadora leitura dominical do grande Célio Heitor Guimarães, estrela da página 3, também aos domingos, de nosso bravo rotativo.Aliás, vocês sabiam que “rotativo” assinala uma curiosíssima origem? Mas esta eu vou deixar para quem se decida pelo livro propriamente dito.Wilson Bueno [16/07/2006]As Vivandeiras.

Ao tomar conhecimento de seu futuro endereço, o bandoleiro Marcola fez questão de saber do clima em Catanduvas: “Subtropical úmido, com verões quentes, geadas pouco freqüentes, chuvas nos meses de verão. No verão, temperatura sempre superior a 22ºC; no inverno, mínimas inferiores a 18ºC”, respondeu o carcereiro. Marcola então retrucou: “Quero saber o clima entre os catanduvenses, imbecil!”. Só na guerra se acabam as vaidades / Só na guerra não custa morrer
Ai que vida, que vida / Ai que sorte tão bem escolhida
Ai que vida que passa na guerra / Quem pequena na guerra viveuQuem sozinha passando na terra / Nem o pai, nem a mãe conheceu
Quem a vida quiser verdadeira / É fazer-se uma vivandeira
Ai que vida é esta que eu passo / Com tão lindo gentil mocetão / Se eu depois da batalha o abraço / Ai que vida pro meu coração
Que ternura cantando ao tambor / Ai amor, ai amor, ai amor
Que harmonia tem a metralha / Derrubando fileiras sem fim / E depois, só depois da batalha / Vê-lo salvo, cantando-me assim
Tuas marchas te fazendo trigueira / Mais te amo gentil vivandeira
Não me assustem trabalhos da lida / Nem as balas me fazem chorar / Ai que vida, que vida, que vida / Esta vida passada a cantar
Que eu lá sinto no campo o tambor / A falar-me meiguices de amor
Mas deixemos os cantos sentidos / Estes cantos do meu coraçãoE prestemos atentos ouvidos / Rataplão, rataplão, rataplão
Rataplão, rataplão, que o tambor / Vai cadente falando de amor.
(Canção da Vivandeira, de autor anônimo)
Sábado, Julho 15, 2006
Como Um Gossip (Memórias de Um Repórter)

Foi um acontecimento festivo e majestoso (as always), o 4 de julho de 1997 em Nova York. Os americanos fazem a festa aproveitando a paixão pelos espetáculos pirotécnicos e mandam ver. Mas escolhi esta foto da Ana Beatriz Nogueira e Sonia Braga, feita no final da tarde (os fogos espocam assim que escurece) para dar uma idéia da festa que se desenrola. Estamos no roof da casa do maestro Thomas Cavacciali, no Brooklyn, onde era servido um coquetel informal (quer dizer, foi feita uma vaquinha) à base de cerveja, vinhos e pizzas. A Sonia é “madrinha” da orquestra de Thom























































































































































































































