Sábado, Setembro 30, 2006
Preparem-se!
Pra eu poder te desenhar,
Eu sou a tua pinça, mina,
Cheguei pra te depilar. Te penteio com o meu pente, nega,
Te pinto com minha broxa, grenha,
Despenteio a tua tocha cheia,
Faço o teu pêlo desenrolar. Pêlo sim e pelo não,
Não me faz embaraçar,
Que eu te descabelo toda, mola,
Pena e pluma a deslizar. Me revolto e te revolvo,
Minha garofina fina,
Faço de você boneca,
Cabeluda colombina. Mexe-mexe as madeixas,
Mata densa emaranhada,
Mete isso na cabeça,
Mecha luz enraizada. O meu pente banguela,
Todos os dentes perdeu,
A tua crina, megera,
Minha palma amoleceu. Fica paradinha aí,
Que eu quero só te espiar,
Faz de mim o teu reflexo,
Tua imagem a me mirar.Bárbara Gancia
Os Velhos Titãs.
Encontro de gigantes em Curitiba, algo em torno do começo do século, shopping Batel, lançamento de um livro do Waly sobre o performático Hélio Oiticica. O rarefeito Wilson Bueno surgiu da noite fria para surpreender o velho amigo baiano (1944-2003) que se pronunciava com vigor em doses poéticas. Não faz muito tempo.(foto Julio Covello)Toninho Vaz, de Santa TeresaSexta-feira, Setembro 29, 2006
Para todos los hermanos que tienen hambre de poesia.
Antiguamente, se moría.
1907, digamos, aquello si
que era morir.
Moría gente todo el día,
moria con mucho placer,
moria con mucho placer,
ya que todo el mundo sabía
que el Juicio, al final, vendría,
que el Juicio, al final, vendría,
y todo el mundo iría a renacer.
Moríase prácticamente de todo.
Moríase prácticamente de todo.
De dolencia, de parto, de tos.
Y aun se moría de amor,
Y aun se moría de amor,
como si amar muerte fuese.
Para morir, bastaba un susto,
Para morir, bastaba un susto,
un pañuelo en el viento, un suspiro y pronto,
allá se iba nuestro difunto
allá se iba nuestro difunto
para la tierra de los pies juntos.
Día de años, casamiento, bautismo,
Día de años, casamiento, bautismo,
morir era un tiempo de fiesta,
una de las cosas de la vida,
una de las cosas de la vida,
como ser o no ser convidado.
El escándalo era costumbre.
El escándalo era costumbre.
Mas los daños eran pequeños.
Descansó. Partió. Dios lo tenga.
Descansó. Partió. Dios lo tenga.
Siempre alguien tenía una frase
que dejaba aquello más o menos.
que dejaba aquello más o menos.
Tenía cosas que mataban por cierto.
Pepino con leche, viento canalizado,
Pepino con leche, viento canalizado,
maldición de vieja y amor mal curado.
Tenía cosas que tienen que morir,
Tenía cosas que tienen que morir,
tenia cosas que tienen que matar.
La honra, la tierra y la sangre
La honra, la tierra y la sangre
mandó mucha gente para aquel lugar.
¿Qué más podía un viejo hacer,
¿Qué más podía un viejo hacer,
en los idos de 1916,
a no ser pegar neumonía,
a no ser pegar neumonía,
dejar todo para los hijos,
volverse fotografía?
volverse fotografía?
Nadie vivía para siempre.
Al final, la vida es una upa.
Al final, la vida es una upa.
No dio para ir más allá.
Pero nadie tiene culpa.
Pero nadie tiene culpa.
¿Quién mandó no ser devoto
de San Ignacio de Acapulco,
de San Ignacio de Acapulco,
Niño Jesús de Praga?
El diablo anda suelto.
El diablo anda suelto.
Aqui se hace, aquí se paga.
Almorzó y se hizo la barba,
Almorzó y se hizo la barba,
tomó un baño y se fue en el veinte.
No tengo qué reclamar.
No tengo qué reclamar.
Ahora, vamos al testamento.
Hoy, la muerte está difícil.
Hoy, la muerte está difícil.
Tiene recursos, tiene asilos, tiene remedios.
Ahora, la muerte tiene limites.
Ahora, la muerte tiene limites.
Y, en caso de necesidad,
la ciencia de la eternidad
la ciencia de la eternidad
inventó una criónica
Hoy, si, personal, la vida es crónica. Paulo Leminski
Hoy, si, personal, la vida es crónica. Paulo Leminski
Quinta-feira, Setembro 28, 2006
Alerta Geral! Vírus!
Se você recebeu e-mail mandado por mim com este link, delete imediatamente. Não abra, pois trata-se de um cavalo de tróia que toma conta da sua caixa postal e reenvia a mensagem para todos os seus amigos. Já comuniquei a UOL, mas eu acho que é caso de polícia. O e-mail faz referência, como chamariz, à Daniela Cicarelli. Não abra em hipótese alguma. Obrigado, moçada. Sempre alerta, pois tem malandro na jogada. Solda
Diários de Viagem (1).
Praia da Mata.
Palestra no CESUSC.A primeira surpresa, ainda no Galeão, foi um labrador de 4 anos ocupando a primeira fila do vôo 1602 da GOL com destino a Floripa. Cena incomum patrocinada pela norte-americana Jacqueline S. , deficiente visual que se apóia nas destrezas de Webster para atravessar o mundo e curtir férias na antiga Ilha do Desterro. (Eu pude acompanhar o cachorro, desde a sala de embarque até o avião – e seu desempenho foi simplesmente exemplar.
O esperto animal parava e considerava outros caminhos possíveis além do óbvio – e acabou aderindo à maioria ao seguir pelo finger.) Pendurado ao seu pescoço um aviso para os incautos: “Não me toque. Estou trabalhando”.
Em Floripa, sem nenhum trauma participei do lançamento do livro PAULO LEMINSKI: DO CARVÃO DA VIDA O DIAMANTE DO SIGNO, do escritor catarinense Jayro Schmidt, para o qual escrevi o prefácio. Os quatro ensaios de Jayro, abordando o Leminski biógrafo, missivista, prosador e poeta, funcionam como um guia para quem se aventure ao entendimento do mood psicológico, emocional e literário de Leminski.
A iniciativa do evento, que incluía minha palestra (sala lotada), foi do CESUSC, na figura do curitibano Nilo Kaway, que aparece na foto abrindo os trabalhos da noite. Ele fez tudo em parceria com a editora BERNÚNCIA, metralha literária do guerreiro Vinicius Alves, poeta e tradutor (no canto direito da foto).
Sem nenhum trauma fui descansar no dia seguinte na praia de Jurerê Internacional. Vocês conhecem? Coisa de cinema. Condomínio de alto luxo com cuidados básicos na preservação da mata nativa, que se mantém incólume numa faixa aproximada de 20 ou 30 metros entre a areia e a primeira mansão.
O modelo de condomínio é americano e entre outras virtudes garante trabalho braçal a quase uma centena de nativos da região de Canasvieiras e Jurerê, além de empregos indiretos. Carpinteiros e faxineiras são os mais requisitados. Encontrei algumas aberrações arquitetônicas entre as mansões, mas a maioria traduz bom gosto e limpeza ao estilo dos gringos, é claro!
Toninho Vaz, de Florianópolis
Toninho Vaz, de Florianópolis
Quarta-feira, Setembro 27, 2006
Política, Caso de Polícia.
“Nós estamos cuspindo na rotativa em que comemos. O PT é um produto da imprensa. A imprensa sempre ampliou a nossa voz e a nossa luta. A cobertura democrática cobra mais do vencedor. Sempre. O PT sabe disso. É obrigação da imprensa livre. Nós devemos nos contentar em vencer as eleições. E não em triunfar sobre a liberdade de imprensa e de opinião.” (Deputado Paulo Delgado - PT-MG.). No final do calendário, jornais e revistas escalam redatores para fazer as tradicionais retrospectivas do ano. Páginas e mais páginas com fatos e fotos que mais servem para fechar aquelas edições atropeladas pelos feriados de fim de ano, que jornalista também gosta de provar do panetone. Para essas retrospectivas, é preferencialmente escalado um redator vindo da editoria de política, até porque os fatos políticos é que provocam as grandes tragédias da temporada. Este será um ano excepcional. Ao invés de um redator político, os editores devem escalar um outro profissional para compilar os acontecimentos: o repórter policial. Ou, no jargão do ofício, o “carrapicho”. Da editoria “política” para a “polícia”, uma letra a mais, uma a menos, não vai fazer falta, porque estes novos tempos transformaram a política num escabroso caso de polícia. E, por conseqüência, os casos policiais são tratados como fatos políticos. Em suma, no andar de baixo dos três poderes agora se faz necessária uma delegacia de polícia; onde atrás das grades pretendem trancafiar a imprensa. *** “Carrapicho” é o jornalista policial que não desgruda da polícia, sempre na pista de uma manchete em vermelho. Rafles de Oliveira foi um dos mais memoráveis “carrapichos” da imprensa paranaense. Naqueles tempos barulhentos, quando uma redação de jornal recendia a álcool, tabaco e o suor provocado pelas pesadas máquinas de escrever. O falecido Rafles era um autêntico “carrapicho”: não tirava o olho do delegado e da garrafa no outro lado da rua. No extinto Correio do Paraná, o jornalista Renato Muniz Ribas era o secretário de Redação. Certa feita, Renatão chamou o seu principal “carrapicho” para uma conversa “no particular”: — Rafles, você é um grande repórter, todos nós aqui gostamos de você, mas, por favor, controle a bebida, senão... eu não vou poder controlar a situação. Pois então se deu que Rafles não controlou a bebida, muito menos Renato Ribas controlou a situação. “Carrapicho” de bom texto, Rafles não ficou sem emprego. Dias depois lá estava Rafles trabalhando no Diário do Paraná, por empenho e graça do editor Jorge Narozniak. Sob a condição de controlar a “malvada”. E por uns meses ele controlou. Até que num cinzento dia, o “carrapicho” desgrudou do prumo.
— Narozniak, vou ali no Bar do Luiz tomar “umazinha” para firmar o pulso e já volto. Juro, só “umazinha”. Rafles foi e o polaco Narozniak ficou. Ficou esperando, esperando... e cadê o Rafles? Sem o “carrapicho”, sem a reportagem e com o jornal quase na rotativa, o desolado editor precisou apelar para o jornal concorrente, o Correio do Paraná. Naqueles tempos, a concorrência era risonha e franca. — Renatão, me ajuda! Estou aqui com a manchete da página policial pendurada. O Rafles saiu para tomar um trago e até agora não apareceu. — O Rafles? Então foi isso... Ele entrou aqui na redação, sentou e ficou escrevendo por bem duas horas. Levantou, passou na minha mesa e deixou uma matéria prontinha. Assim como entrou, saiu: sem cumprimentar ninguém. Pois foi assim o sucedido, Rafles cumpriu as recomendações de Narozniak. Foi no Bar do Luiz, tomou um trago e voltou ligeiro para a redação. Só que para a redação errada. *** Nesses tempos estranhos, os repórteres policiais estão trabalhando no lugar errado. Deviam estar cobrindo a política. Dante Mendonça [27/09/2006] O Estado do Paraná.
Terça-feira, Setembro 26, 2006
Córdoba, la ciudad de Crist, Cristobal Reynoso.
ella no me obedeció.
Habló en mar, en cielo, en rosa,
en griego, en silencio, en prosa.
Parecía fuera de sí,
la sílaba silenciosa.
Mandé a la frase soñar,
y ella se fue por un laberinto.
Hacer poesía, yo siento, apenas eso.
Dar órdenes a un ejército,
para conquistar un imperio extinto. p. leminski
Segunda-feira, Setembro 25, 2006
Leitura de mg.

Ler é vital. Foi o que eu disse ao médico que me passou uma receita ilegível. Ler pode ser fabuloso. Foi o que pensei lendo e relendo uma bula. Ler enriquece. Foi o que calculei na leitura da nota fiscal da farmácia. Ler aumenta a sede de saber. Foi o que me ocorreu com o copo na mão e ao reparar nas letrinhas do comprimido. Ler ilumina. Foi o que constatei levando o remédio até sob o abajur. Ler distrai. Foi o que me aconteceu ao ver que a lâmpada estava queimada. Ler é útil. Foi o que confirmei ao verificar a voltagem da lâmpada nova.Ler ativa o cérebro. Foi o que eu soube quando de repente lembrei que antigamente os interruptores tinham “liga” e “desliga” junto à chavinha. Ler afasta maus pensamentos. Foi o que me disse em voz alta, sem pensar. Ler acumula conhecimento. Foi o que medi olhando a estante para localizar o comprimido que eu devia tomar. Ler nos torna aptos para muita coisa. Foi o que considerei arrastando móveis e me agachando no chão. Ler é divertido. Foi o que me fez rir ao revirar papéis com rascunhos na cestinha do escritório. Ler alerta os sentidos. Foi o que me chamou a atenção para os números do relógio. Ler informa. Foi o que conclui ao ver as horas. Ler instrui. Foi o que me moveu pra pegar mais um comprimido na caixa. Ler pode trazer surpresas. Foi o que me veio à cabeça lendo o nome do produto. Ler é motivador. Foi o que me fez voltar rapidamente à farmácia para trocar o medicamento que me venderam errado. Ler é vital. Como eu já dissera ao doutor de má caligrafia. Domingo, Setembro 24, 2006
Psiu!
quitandados quintanares
o poeta silencioso
leva a alma
a passear pelas alamedas
amarelecidas
são fotografias
que o tempo
mastigou as pontas(solda)
Vida Pedestre.
Dante Mendonça, sempre ao pé da pauta, pródigo em investigar com invariável verve as coisas & loisas da tribo, realizou aqui em O Estado, a propósito do Dia do Pedestre, tão sucinto quanto delicioso levantamento de volante e literatura. Ou de volante e literatos, para ser mais preciso.Incluiu-me no rol dos escritores ao largo das relações nem sempre pacíficas entre motoristas e Detran, na boa companhia de Manoel Carlos Karam e dos jornalistas Luiz Geraldo Mazza e Nego Pessoa. Até mesmo o “corpitcho” do Nego não foi esquecido. A única pessoa no mundo, creiam, que deixou de fumar sem engordar um grama. Dê-lhe sola de sapato...Lamento informar ao nosso também brilhante cartunista, e a quem interessar possa, que, já dobrando a curva dos cinqüent’anos, decidi atualizar uma Carteira de Habilitação vencida há mais de três décadas. E lancei-me, kamikaze, ao torvelinho do trânsito nosso de cada dia. Para espanto de meu amigo Fábio Campana, outro pedestre histórico.Antes nunca me tivesse lançado - suores frios, pânico, incapacidade de controle motor do pé na embreagem, angústia e aflições foram a contumaz companhia ao menos nos primeiros meses de meu tardio retorno ao volante. Hoje, quatro anos depois, sorry periferia, com a empáfia de um Schumacher ando e reando a cidade, a bordo de meu Uno vermelho. Sem ter deixado nunca, aliás, de dar uma buzinada, cínica, toda vez que passei no Alto da XV, ali onde existia a caverna do Vampiro, parece que recentemente desativada. Para chamar a atenção, claro, do sombrio Dalton Trevisan, que decididamente não é mais o mesmo. Lembro dele, na minha primeira juventude, pilotando um fusquinha creme, célere e lépido pelas ruas da então aldeia curitibana. Sabias disso, Dantióvski Mendonçovich? Sim, o Vampiro tem carteira, mas aos oitenta e poucos anos acho que não dirige mais... Se é que dirigiu, a sério, algum dia. E depois, pilotar naquela Curitiba era mole... Queria ver hoje o genial Vampiro - que, anote-se, anda mais para Drácula -, na hora do rush, ali na confluência de André de Barros com Mariano Torres. Só para ficar neste exemplo geográfico.Por falar em geografia urbana, lembro Paulo Leminski, outro notório sem-habilitação, toda a vez em que entrava no horrendo fusca verde da Alice Ruiz: “Não dirijo, mas sou o maior teórico de trânsito de Curitiba!”. Tinha que ser melhor em tudo, nem que fosse em matéria de tráfego...A maciça maioria de escritores que conheço, ou conheci, não dirige. João Antônio, Drummond, Pedro Nava, Rubem Braga, Haroldo de Campos, José Lino Grünewald, Nelson Rodrigues. Para ficar só nestes que me ocorrem a vigorar na saudade. Fato curioso se lembrarmos que a primeira pessoa a pilotar um automóvel no Brasil, sabiam?, foi um poeta - justo o inefável Olavo Bilac.No início do século 20, no Rio, Bilac fez funcionar um estrambótico fordeco, recém-importado por José do Patrocínio. Não andou mais que cinco quadras, espatifando a engenhoca no primeiro poste. Virá daí a resistência de escritores ao volante? Pode ser: poeta tem mais é que se limitar a ouvir estrelas... Isso aí já basta e nem é, convenhamos, tarefa fácil.Wilson Bueno/O Estado do ParanáConspiração Tabajara.
Fernando Henrique Cardoso, Jorge Bornhausen, Tasso Jereissati e uma garrafa de uísque Red Label formavam o que se poderia chamar de uma natureza morta, naquele fim de tarde no apartamento do ex-presidente. Com a desolação refletindo em seus olhos azuis, Jorge Bornhausen quebrou sepulcral silêncio olhando para os números das últimas pesquisas. — Perdemos. A não ser que alguém tenha alguma jogada milagrosa para reverter o placar e levar o jogo para a prorrogação. — Impossível, o chuchu não tem fôlego! - respondeu FHC.Olhando o gelo no fundo do copo, Tasso Jereissati murmurou:
— A única jogada milagrosa, nessa altura do campeonato, é o time do Lula fazer algum gol contra. Eles são especialistas em chutar a bola contra as próprias redes. Só o PT é capaz de derrotar Lula. — Tasso, você é um iluminado! - levantou a voz FHC — Essa é a jogada milagrosa para levar o jogo à prorrogação. Só nos basta rolar a bola para o PT chutar contra as próprias redes! — Explica melhor, Fernando!
— Elementar, meu caro Bornhausen! Você entende de pescaria, basta jogar uma isca e puxar a tarrafa com os petistas dentro. Acompanhem o meu raciocínio - pediu o professor da Sorbonne -, o brasileiro tem memória fraca. O único escândalo que ainda está na boca do povo, por ser muito recente, é a falcatrua dos sanguessugas. Um lamaçal que pode respingar em todos nós, percebem? Especialmente no Zé Serra. E quem poderia ter munição para derrubar o nosso ex-ministro da Saúde? Não vamos nos esquecer: o PT paulista admite até perder a Presidência da República, nunca o governo de São Paulo. O objetivo da caça está em Brasília, armas e munições estão em São Paulo e a arapuca será armada em Cuiabá. Este é o plano. — Percebi! - retrucou Jereissati — A arapuca é Luiz Antônio Vedoin, o chefe da máfia. Só ele poderia fornecer provas que possam ligar Zé Serra aos sanguessugas. Se os petistas souberem que Darci e Luiz Vedoin têm em mãos documentos que revelem o comprometimento dos tucanos, eles fazem qualquer negócio para virar o jogo em São Paulo. — Bingo! Primeiro passo: é preciso chegar aos ouvidos de Vedoin que, se ele possuir algumas fotos do Zé Serra entregando ambulâncias, o PT pagaria uma fortuna por elas. Segundo passo: os petistas precisam ficar sabendo que Vedoin botou à venda um álbum de fotografias por dois milhões de reais, mas aceita contraproposta. Terceiro passo: soprar aos ouvidos - que são eletrônicos - da Polícia Federal que uma negociação escabrosa se desenrola entre a família Vedoin e a coordenação nacional da campanha do Lula. — Até aí tudo bem - retrucou Tasso Jereissati — Mas será que os petistas são tão burros para acreditar nesse conto do vigário? — Caro Tasso, você está superestimando a inteligência deles. Eles são mais que burros, e te dou sete nomes da cúpula petista que dão milho para bicicleta: Ricardo Berzoini, o chefe dos otários, Oswaldo Bargas, que não consegue andar e mascar chicletes ao mesmo tempo, Hamilton Lacerda, que costuma bater com o sorvete na testa, Expedito Velozzo, o diretor de riscos, Freud Godoy, o psicanalista do presidente, Gedimar Passos, o araponga, e o meu conterrâneo Lorenzetti, o ministro do churrasco. Esse tem miolo mole, miolo de alcatra. Esse é que vai assar as costelas do presidente. — O Lorenzetti vai dar uma banho de água fria no PT!
— Sete homens e um destino: levar o chuchu para o segundo turno! ***— Só resta um pequeno detalhe, nessa Operação Tabajara: onde esses trapalhões vão arrumar dois milhões de reais para comprar as quinquilharias do Vedoin? — perguntou Jereissati, sem conter uma sonora gargalhada.
FHC, Jereissati e Bornhausen estão gargalhando até agora. Dante Mendonça [24/09/2006] O Estado do Paraná.
Sábado, Setembro 23, 2006
É o Fim, é o Fim!
Meu bom deus. Este mundo vai acabar, sim, ele vai. "Cicarelli passou dos limites com vídeo, diz Bruna Surfistinha" é a manchete na capa do UOL. A matéria começa com "a escritora e ex-prostituta" e ei, ei, pera um pouco aí, pra ser escritora pessoa não tem que, assim, escrever o próprio livro, em vez de contar uma história para um ghostwriter? Já começou mal a coisa. Se eu tenho inveja? É claro que eu tenho inveja. Se eu um dia vender tanto quando a Bruna Surfistinha, serei uma pessoa feliz com contas em débito automático, minha atual meta de vida. Mas não era isso que eu ia dizer. Eu ia dizer: POR DEUS, DEIXEM A MULHER DAR NA PRAIA EM PAZ. Eu gosto de fazer sexo em lugares públicos. O perigo é excitante. Eu inclusive já fiz sexo numa praia na Espanha, e nós mesmos filmamos. Oquei, era uma praia deserta, mas nunca se sabe do que essa gente louca é capaz. Paparazzis e voyeurs são capazes de desalojar um ermitão de sua concha por boas imagens. Mas eu não sou celebridade, eu posso. Quer dizer, na verdade, todo mundo pode. Eu acho bem over essa coisa toda de "perder contratos milionários". Ora bolas, gente, a menina estava apenas se divertindo. Deixem a menina trepar. Que saco. Que gente intrometida. E eu acho que ela devia se pronunciar assim: "Dei. E foi bom." Pelo menos era o que eu faria. Duvido que existisse mais polêmica depois disso. Não dá pra negar. Então assume. E cada um que aprenda a cuidar do seu próprio nariz. Sem mais, Clarah Averbuck.(descaradamente roubado do blog Adiós Lounge, da Clarah, link ao lado)Humor Brasileiro Na Bósnia.

Envios os posters ( afiches ) da inaoiugaraçao da mostra de humro btrasileiro en Bosnia. O titulo da mostra en Bosnio e "Caricatura brasilera". Parabems a tudos os artistas participantes! Obrigado a tudos os que fizerom essa mostra possível! Sem vocês , essa mostra nao poderia ter sido possivel. Agora o talento brasileiro e reconhecido en Banja Luka, Bosnia - Herzegovina. Beijos Ana von Rebeur ( Argentina) & Goran Kljacic ( Bosnia)*E eu também estou nessa (Solda — o monge do Bacacheri)
Como discutir a história? Para mim, a parte mais importante dela é o presente. Este presente. O meu presente. Ia-se mais fundo nela antigamente, porque havia menos fatos simultâneos e, por isto, melhores condições temporais de desfiar a verticalidade histórica, sentido retro. Além disso, não havia muito longe para ir, exceto os mergulhos de arqueólogos amadores (são milênios, séculos), visionários, lunáticos – mais à procura de tesouros e riquezas do que de passado, propriamente.Hoje, chegam as novidades acumuladas do outro milênio – o segundo, claro. E ainda vimos de um século que nos trouxe a síntese – do bem e do mal – de um tempo historicamente recente: confrontos urbe et orbi e revolução industrial; comunismo e quedas de fronteiras; superdesenvolvimento econômico, consumismo e miséria generalizada; banalização da fé, do amor, da guerra; que mais? Agora todo saber flui pelas pontas dos dedos. Nossa garras, quanto mais afiadas e jovens, mais previsível é o futuro, neste naco de bola de cristal. Aqui, nada de novo, e, tudo novo. O pensar real e o agir virtual passam, em banda larga, pela filtragem instantânea dos olhos e dos demais sentidos. Em constantes abre e deleta, abre, escaneia, copia e deleta, envia, recebe, encaminha. O computador: quase um irmão xifópago.(Cartas para Blog Hope, aqui) Ewaldo SchlederSexta-feira, Setembro 22, 2006
O Mestre de Santa Felicidade.
Não se vai a Roma sem ver o papa; não se vai a Florença sem ver o David de Michelangelo Buonarroti, mestre do Renascimento; e não se vai ao bairro italiano de Santa Felicidade, em Curitiba, sem ver as obras do escultor, gravador e pintor João Moro.Se todos os caminhos levam a Roma - ao sul de Florença -, em Curitiba todos os caminhos levam ao bairro gastronômico de Santa Felicidade e ao atelier de João Moro: uma casa branca no pé de uma ladeira, numa esquina abaixo do restaurante Porta Romana, à direita de quem vai.Michelangelo levou três anos para concluir a escultura de David, o símbolo da República de Florença. Começou em 1501 e a concluiu em 1504. A obra retrata David no momento em que está apenas se preparando para enfrentar a força de Golias, que todos julgavam ser impossível de derrotar. Filho de bravos colonizadores do sudoeste paranaense, o artista João Moro, 47 anos, também venceu adversidades que muitos julgavam impossíveis de derrotar. Nascido em Pato Branco, no sudoeste do Paraná, mudou-se em 1986 para Curitiba, para ingressar da Faculdade de Belas Artes. A partir daí - orgulha-se - nunca mais foi empregado de ninguém, muito menos do Estado. Esculpindo, pintando e bordando paredes e painéis, hoje assina embaixo de uma das maiores oficinas de escultura e restauros do Brasil. É o feliz mestre de obras do mais completo atelier particular de gravura do Paraná. Com três prensas para litogravura, gravura em metal e xilogravura, Moro tem no seu patrimônio um raro acervo de pedras litográficas originárias da Bavária. São pedras extintas, herança de seu avô, Valeriano Moro, um velho engenheiro químico da Klabin. As pedras eram usadas para as gravuras de embalagens e, com a modernização dos equipamentos, restaram para o neto de Valeriano as centenas de pedras que até mesmo na Bavária original são motivo de cobiça.Se Buonarroti é o referencial de Florença, João Moro é uma referência em Santa Felicidade. Dos cozinheiros, passando pelos garçons, até os senhores proprietários de restaurantes, não há quem não cumprimente o mestre com cordial respeito e belos motivos. Do cardápio de João Moro, podemos nos deliciar com as pinturas em afresco do Madalosso, os painéis do Porta Romana e da Pizzaria Pompéia, a fachada do Siciliano, a escultura do galo do Madalosso, o painel em relevo do Dom Antônio, painéis de carvalho e estátuas da história da família Durigan, mais obras diversas no Piemonte, Vinhos Durigan, Vinhos Santa Felicidade, Peixe Frito e Sabor da Gula, entre outros. Restaurações da Igreja do Portão em Curitiba, do Palácio Seráfico de Rio Negro e da estação ferroviária de Antonina. Em fase de acabamento, uma escultura em mármore de sintético, de seis metros da altura, para o novo Crematório Vaticano (foto). Com obras espalhadas pelo Brasil - entre eles os painéis internos para todas as agências do banco português Banif - sua maior e mais recente criação está erguida em São Paulo: uma escultura de 23 metros de altura na Rua 23 de Maio com Avenida Paulista. De voz e aparência calmas, João Moro não consegue esconder um olhar elétrico de quem quer moldar um futuro maior ainda. Para o ano que vem deve criar uma outra grande escultura em Angola e, neste final de semana, é a estrela maior do Projeto Fera, da Secretaria de Educação, que se realiza no Parque Barigüi. Um bom programa para este final de semana: saborear o cardápio de Moro em Santa Felicidade, depois conferir 350 de suas obras (carga para três caminhões) espalhadas no mais freqüentado dos parques de Curitiba.Dante Mendonça [22/09/2006]O Estado do ParanáQuinta-feira, Setembro 21, 2006
Os Livros do Prof. Thimpor.
CICUTA SEM GELO, de José Parmênides de Eléia; Editora Priori; oitocentas e tantas páginas, uma mais enfadonha que a outra.O autor não é, seguramente, pela Ética Tomista. Esta, baseada na finalidade metafísica, supõe que todos os seres têm um fim prefixado. Neste livro, José Parmênides contraria toda uma filosofia iniciada em “Raios Catódicos”, polêmico e fundamental para a carreira do volúvel mineiro, que, aos 97 anos, é considerado um dos baluartes do “orelhismo”, movimento banido da Semana de 22 por não ter pé nem cabeça.Na página 346, Parmênides nega tudo o que disse antes ao propor que “para se chegar a um determinado fim, é preciso passar pela metade, assim, um outro fim foi atingido, não o fim final, mas o fim começo” ou “o cume da escolástica é muito mais alto do que se imagina”.Se os orelhistas atuais não estivessem tão euforicamente encurralados, teriam em Parmênides um colaborador de grande vulto, principalmente depois que, encarado pela intelectualidade pós-guerra, ele virou o rosto e escreveu “Moldando Baquelite”, oferecido às duas irmãs numa dedicatória simples e fulminante: “À Dulcinéia e à Rutinéia, sem as quais eu não continuaria na boléia”.Parmênides sempre teve na baderna uma arma contra a imensa seriedade peculiar de seus contemporâneos.Olhar os lírios da estante, para ele, sempre foi uma discussão linguística, mas “Cicuta Sem Gelo” dificilmente será aquilo que todos esperam de um livro de Parmênides, contraditório do começo ao fim, em todas as páginas.A mais cara das contradições, que deve custar ao autor o esquecimento por muito tempo, está na tonalidade discursiva, demonstrando talento e habilidade ao folhear o palavreado, mas deixando para trás o motivo inicial do livro, isto é, a finalidade dialética pura de encontrar a verdade.E ela estava debaixo do tapete.Prof. ThimporQuarta-feira, Setembro 20, 2006
24º Salão de Humor do Piauí.
com minha exposição de haikais Ostras Parábolas,
onde ministrarei oficinas pra moçada.Solda
24º Salão de Humor do Piauí.
Cássio Loredano é presença garantida no Salão de Humor do Piauí, com seu traço fantástico e inconfundível. Aqui, um poema de Antonio Thadeu Wojciechowski para Garrincha.o gênio de pau grande
com o garrincha jogando
a bola ia sempre na mesma direção
para o mesmo lado do campo
ou às vezes nem ia até
ficava ali, parada, olhando pro mané,
que olhava os adversários no chão
em segundos, a bola pensava horas:
“deus joga certo por pernas tortas”
com o garrincha jogando
a bola ia sempre na mesma direção
para o mesmo lado do campo
ou às vezes nem ia até
ficava ali, parada, olhando pro mané,
que olhava os adversários no chão
em segundos, a bola pensava horas:
“deus joga certo por pernas tortas”
Compensações Descompensadas.
Quem está com cara de quem comeu e não gostou, pelo menos comeu. Quem neste verão entrou numa fria está numa cela refrigerada. Quem levantou com o pé esquerdo foi mais longe que um entrevado.Quem deu o braço a torcer está apto ao contorcionismo. Quem está por um fio ainda não foi apanhado na teia. Quem não tem onde cair morto fica em pé mais tempo. Quem foi desta para melhor finalmente saiu da eme em que estava. Quem ficou chupando os dedo perdeu só os anéis.Quem é passado pra trás não é mais perseguido. Quem já deu o que tinha que dar, agora está livre dos pedintes. Quem caiu no conto do vigário já pagou os pecados. Quem está com a corda no pescoço não está com a garganta desagalhada. Quem subiu pelas paredes viu a crise do alto.Quem não se agüenta mais nas tamancas descalço não está. Quem chorou o leite derramado lubrificou os olhos. Quem ficou a ver navios curtiu a paisagem. Quem caiu em si foiaparado pelo ego. Quem dançou conforme a música, deu um show. Quem está desenganado não se equivoca mais. Etc.O Golpe Que Paira No Ar.
Moramos num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, com os costumeiros odores pairando no ar: se não é o cheiro de pizza, é a fedentina do golpe político.Nos últimos dias, quem primeiro exalou os vapores de golpe foi Luiz Inácio Lula da Silva, devidamente apurado pelo sensível olfato do jornalista Elio Gaspari. Durante um jantar em São Paulo, o presidente em vias de reeleição confessou que gostaria de fechar o Congresso.
Ao responder ao empresário Eugênio Staub sobre como pretendia fazer as reformas necessárias ao País, Lula deitou-se no sofá e abriu a alma ao companheiro Freud:
— Staub, não acorde o demônio que tem em mim, porque a vontade que dá é fechar esse Congresso e fazer o que é preciso.
E por que não? Luiz Inácio só estaria mantendo uma antiga tradição. O Congresso Nacional já foi fechado sete vezes: 1823, 1889, 1930, 1937, 1966, 1968 e 1977.
Assim que repercutiu a nota de Gaspari, com o título de “Demônio golpista”, o Planalto divulgou nota à imprensa afirmando que o presidente jamais fez qualquer “ameaça ou hipótese de restrição ao livre, pleno e soberano funcionamento do Congresso Nacional”.
Ontem, a jornalista Miriam Leitão deu mais detalhes do “ato falho”. A frase foi ouvida por várias pessoas, dentro de uma resposta indignada a um empresário que comparou o Brasil com o sucesso da China: “Um absurdo. A China não tem greve, não tem previdência, não tem Congresso. Aqui também, se fosse assim... Eu adoraria. Seria muito mais fácil”.
No dia seguinte ao jantar, a Polícia Federal tornou público o episódio do petista preso com R$ 1,7 milhão, que seria usado na compra de dossiê contra os tucanos José Serra e Geraldo Alckmin.
O Ministério Público Federal pediu a prisão do assessor presidencial Freud Godoy; a oposição clama pela cassação do presidente; os governistas denunciam que os demônios da direita tramam um golpe para derrubar o presidente.
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O escritor Jamil Snege tinha como candidato preferido a deputado o artista plástico Rogério Dias. E escreveu porque: “Rogério Dias, nascido no norte do Paraná, cedo perdeu o rumo e veio para Curitiba. Escultor e pintor, é o único sujeito que pega AM e FM ao mesmo tempo, isso quando não mistura as estações de uma mesma faixa. Extremamente versátil, tem uma grande vantagem sobre os outros candidatos: funciona a eletricidade e a pilha”.
Rogério Dias é também um grande pensador, com uma teoria de como começa e termina a democracia no Brasil. Dizia Rogério aos seus passarinhos:
— Vai o presidente para a televisão e anuncia ao povo que “todo cidadão terá direito a um sanduíche com manteiga e uma salsicha”.
— Vai o presidente para a televisão e anuncia ao povo que “todo cidadão terá direito a um sanduíche com manteiga e uma salsicha”.
Dali a uma semana um ministro corrige: “Todo cidadão realmente terá direito a um sanduíche com uma salsicha. Menos a manteiga, devido ao déficit da previdência”. Dias depois, um outro ministro revela que a balança de pagamentos forçou uma pequena mudança no planejamento: “Todos terão direito à salsicha, mas, infelizmente, agora acompanhada de apenas meio pão”.
Em edição extraordinária, a televisão mostra a entrevista coletiva do porta-voz do Planalto: “Para conter a inflação, o governo vai ter que apertar os cintos. Assim sendo, vamos cortar o meio pão. Só fica a salsicha”.
A imprensa critica em editoriais, em todo o País o clamor é grande e inútil: como medida extrema, o governo corta também a salsicha, forçado pelos banqueiros que exigem a manutenção das altas taxas de juro.
Segundo Rogério Dias, uma salsicha não basta para uma revolução, uma guerra civil. Os estudantes correm às ruas, as donas-de-casa batem panelas, a oposição esperneia e o governo, em vista dos graves acontecimentos, chama as forças de segurança e distribui bolacha para todo mundo.
Dante Mendonça [20/09/2006] O Estado do Paraná
Terça-feira, Setembro 19, 2006
Psiu.
Indefinição em três linhas e dezessete sílabas. Hai-cai, impalpável que é, pode ser esse ou isso:Pedra fosse, talvez paralelepípedo parado no ar.
Fosse bicho, não iria rugir nem mugir: ciciaria.
Se frutificasse, pêra pendente no pé-de-vento.
Líquido fosse, porcelana morna derramada.
Fosse flor, formaria um ramalhete de galhardetes.
Cor fosse, seria uma mancha perfurada de luz.
Se fosse música, soaria por orquestra de córregos.
Fosse riso, teria tom rosado e meses de idade.
Se somente silêncio, seria susto sem sombras.
Compreende agora o peso do alfabeto ocidental
para o insustentável flutuar do sutil hai-cai? (Fraga)
Segunda-feira, Setembro 18, 2006
Leminski em Floripa.
(A elegância do carvão virando diamante)
Toninho Vaz.
Quando se pensava que tudo já estava dito, Jayro Schmit traz novidades sobre a obra de Paulo Leminski, o mais certeiro poeta da minha geração. Ao inferir-lhe alma de borracha e punhos de aço (na edificação de uma “obra limite”), este ensaio qualifica e contempla algumas virtudes de Leminski consideradas essenciais pela crítica mais consistente. A percepção e a abrangência destas análises oferecem uma visão original de uma obra propositadamente “difícil”, calcada nos paradigmas existentes entre o novo e o belo. Leminski escolheu o novo. Mas, ele mesmo dizia “Não sei para que servem textos extremos na elaboração da linguagem quando codificados dentro de uma nova estética (como Catatau e Galáxias, de Haroldo de Campos), apenas sei fazê-los.” O presente ensaio deve servir como um manual para quem se aventure ao entendimento do mood psicológico, emocional e literário de Leminski, registro pertinente de suas geniais “inclinações momentâneas”. SERVIÇO: A homenagem a Leminski, dia 20, vai ser dentro do 1º. Festival de Final de Inverno, na Universidade de Santa Catarina, às 19 horas, com palestra de Toninho Vaz, biógrafo de Leminski. Encerrando a noite, show da banda Jeremias sem cão. Todos convidados.
É Fim de Noite.
No início dos anos 80, o falecido poeta e publicitário César Bond abriu uma mistura fina de bar com livraria: “Bond Bar, Bond Ler”. Era sócio de outro Bond, Rosnel Bond.Ficava nos fundos da galeria comercial da Rua Emiliano Perneta. Embaixo, a bem fornida biblioteca; em cima, o bem fornido bar. Unindo os dois, estreita escada que revelava muito da concorrida paisagem feminina local.
Num fim de noite, estava César Bond bem decidido a fechar o caixa e abrir um livro de Ferreira Gular, quando subiu um retardatário. Freguês bem conhecido, daqueles que chegam tarde, bebem quietos e saem tarde. Tudo bem, era daqueles boêmios que pagavam a conta, coisa que a maioria fazia questão de apenas autografar. César Bond providenciava o uísque duplo do retardatário, quando o bom pagador o chamou: — Bond, posso levar uma conversa no particular?
Bond chorou no duplo Old Eight com bastante gelo e se chegou à solitária mesa:
— Estou precisando um favor do amigo.
— Sim?
O retardatário deu o primeiro gole e soltou o que lhe afligia naquele fim de noite:
— Você poderia trocar um cheque pra mim?
— Claro. Para os amigos tudo, se precisar até empresto um livro. Só depende de quanto é esse cheque. Na semana o movimento foi fraco.
— Mixaria. Coisa de mil cruzeiros.
— Mil cruzeiros? Numa boa.
— Só tem uma coisa, Bondinho.
— Sim?
— É que deixei o talão de cheque em casa...
— Sim...
— ...então você me arruma os mil cruzeiros hoje, que amanhã eu te dou a folha do cheque preenchida direitinho! César Bond fechou o “Bond Bar, Bond Ler” alguns meses depois, sem chegar a concluir o livro que estava escrevendo: “Mestres da pindura”.
O Brasileirinho foi um bar que marcou época no fim de noite de Curitiba. Tinha boa comida da culinária nativa, muitas garotas e a direção geral da polaca Soninha. Entre outros menestréis, Lápis sempre ali mostrava o seu valor, diariamente podia-se ouvir o violão de Olderico. Quem era Olderico? Era um gaúcho com mais de 30 anos de noite, muitos amores, amigo de copo de Lupicínio Rodrigues. Era um fim de noite, Olderico no banquinho e no violão levando alguma coisa de João Gilberto, quando adentra aquele tradicional retardatário. Com meia garrafa de uísque acima do pescoço. — Olderico, pára com esse “nhenhén” e canta “aquela”!
“Aquela” é a canção mais pedida em fim de noite; e Olderico sabia todas. Começou com Roberto Carlos, Amada amante, deu uma Cavalgada, chegou no Café da manhã.
E o solitário do fim de noite ali: embevecido de um lado, embebecido de outro.
— Bonito, Olderico! Agora toca “aquela” outra! Garçom, mais uma garrafa de uísque!
Depois de tantas “aquelas” canções do repertório de fim de noite, o retardatário não se agüentou nas calças:
— Vou te confessar uma coisa. Até hoje só tinha dois amigos na vida. A partir dessa noite, tenho três: Old Parr, Old Eigth e agora você, Olderico! Dante Mendonça [18/09/2006] Tribuna do Paraná.
— Mixaria. Coisa de mil cruzeiros.
— Mil cruzeiros? Numa boa.
— Só tem uma coisa, Bondinho.
— Sim?
— É que deixei o talão de cheque em casa...
— Sim...
— ...então você me arruma os mil cruzeiros hoje, que amanhã eu te dou a folha do cheque preenchida direitinho! César Bond fechou o “Bond Bar, Bond Ler” alguns meses depois, sem chegar a concluir o livro que estava escrevendo: “Mestres da pindura”.
O Brasileirinho foi um bar que marcou época no fim de noite de Curitiba. Tinha boa comida da culinária nativa, muitas garotas e a direção geral da polaca Soninha. Entre outros menestréis, Lápis sempre ali mostrava o seu valor, diariamente podia-se ouvir o violão de Olderico. Quem era Olderico? Era um gaúcho com mais de 30 anos de noite, muitos amores, amigo de copo de Lupicínio Rodrigues. Era um fim de noite, Olderico no banquinho e no violão levando alguma coisa de João Gilberto, quando adentra aquele tradicional retardatário. Com meia garrafa de uísque acima do pescoço. — Olderico, pára com esse “nhenhén” e canta “aquela”!
“Aquela” é a canção mais pedida em fim de noite; e Olderico sabia todas. Começou com Roberto Carlos, Amada amante, deu uma Cavalgada, chegou no Café da manhã.
E o solitário do fim de noite ali: embevecido de um lado, embebecido de outro.
— Bonito, Olderico! Agora toca “aquela” outra! Garçom, mais uma garrafa de uísque!
Depois de tantas “aquelas” canções do repertório de fim de noite, o retardatário não se agüentou nas calças:
— Vou te confessar uma coisa. Até hoje só tinha dois amigos na vida. A partir dessa noite, tenho três: Old Parr, Old Eigth e agora você, Olderico! Dante Mendonça [18/09/2006] Tribuna do Paraná.
Domingo, Setembro 17, 2006
meu dedo estava amarelado
preciso de um vício novo
bombom, caracu com ovo
bingo, corrida de cachorro loucoai que saudades da minha querida nicotina
e do meu velho e bom arcatrão
e da porvinha do paperzinho que fazia
catarrinho, cosquinha no meu purmão(thadeu w, trindade, cobaia, rodrigo)
— roubado do blog do polaco da barreirinha —
Marca D'Água.
Qual a cidade, leitor, que melhor vos fala ao coração?A pergunta não se prende evidentemente a essa superstição burra que é o turismo, destituída de afeto e de paixão; mais ainda de encantamento. Turistas são seres exaustos, apressados. No máximo levam de volta à casa coloridos instantâneos fotográficos dos lugares pelos quais passaram. Sem se lembrar sequer, muitas vezes, onde era o quê e o quê era aonde.
Nem é preciso ser um viajante obsessivo para eleger a cidade que há de lhe habitar a alma para todo o sempre, dificilmente destituível de tal condição, por mais se desloque o vosso corpo e com ele o talento para amar o improvável, vício e virtude dos andarilhos da Terra. Há de existir sempre, olhando por nós, mais do que nós por ela, a cidade da alma e do coração.
Este talvez o sutil recado que nos dá o poeta russo, naturalizado americano, Joseph Brodsky (1940-1996), nesta pequena grande obra-prima que é Marca D’Água, funda declaração de amor a Veneza, e que acaba de ser lançada no Brasil pela Cosac Naify. Em menos de 100 páginas, na tradução preciosa de Júlio Castañon Guimarães, Brodsky alcança nos revelar, do carbono ao diamante, uma cidade inteira.
Um dos mais jovens Nobel de Literatura da história, ele foi premiado em 1987, com apenasmente 47 primaveras. Coisa rara, sabemos, em se tratando da Academia Sueca, pródiga em laurear macróbios que pouco ou quase nada usufruem em vida dos generosos 1 milhão e meio de dólares, além do enorme prestígio conferido pelo prêmio.
Por 17 invernos, e só neles, o poeta russo - que antes de se exilar nos Estados Unidos comeu o pão que o diabo amassou na então abjecta União Soviética, perseguido, preso e várias vezes torturado que foi pelos esbirros comunistas -, viajou a Veneza, em temporadas nunca inferiores a 40 dias. Sempre em gelados janeiros ou fevereiros. E sempre corajosamente sozinho, apesar de cardíaco de carteirinha, a contabilizar no currículo vários enfartes.
Brodsky e Veneza passam enfeitiçadamente a se confundir. Seja na solidão das tardes que atravessa, encapotado, a escrever distraído nos cafés da Piazza San Marco; seja nas noites embruxadas, os canais invariavelmente cobertos pela indizível nebbia, a neblina hibernal que é uma das marcas da cidade na estação do frio. A tudo o olhar acolhe - sem pressa e também sem melancolia.
Cidade? Construída pelos homens, salvou-a o dom de ser a preferida de Deus e dos deuses. Para lembrar outro viciado em Veneza, o escritor francês Marcel Proust, notório homossexual que ali, acrescente-se, viveu uma de suas mais desestabilizadoras paixões. Aquele tempo em que este tipo de paixão não ousava dizer seu nome.


























































































































































































































